Titane – Crítica

Titane é um thriller-terror-drama escrito e dirigido pela francesa Julia Ducournau, que talvez você conheça pelo seu primeiro longa, Raw, de 2016. O filme teve sua estreia no Festival de Cinema de Cannes em julho onde Ducournau, ao ganhar a Palma de Ouro, também se tornou a segunda diretora mulher a fazer tal feito. Recentemente Titane foi selecionado como o representante da França de Melhor Filme Estrangeiro para o Oscar 2022. Em outras palavras, o longa tem as armas para um bom caminho na temporada, só tem que acertar os tiros.

Julia disse em entrevista uma vez que Titane veio logo depois de Raw, uma ideia que nasceu como se fosse uma continuação, um sentimento que ela queria continuar causando, alcançando alturas que ela não alcançou com Raw, e isso fica bem nítido. Da permanência desse body-horror que coça a pele até rasgar, objetos ordinários como armas letais, violência da mais expressiva e libertadora e até onde vai a carne humana, até as dimensões da sexualidade e do afeto, a necessidade de conexão (ou aversão) das pessoas e o humor seco e sútil.

O filme abre com uma garotinha chamada Alexia (nossa protagonista), de primeira impressão antipática, imitando um motor de carro e irritando seu pai, que dirige na estrada, ao ponto de causar um acidente de carro. Alexia sofre um ferimento no crânio por consequência e tem uma placa de titânio colocada na cabeça, ”fique atento nos sinais neurológicos” diz a médica. No momento em que ela sai do hospital, ela vai correndo beijar o carro. Anos depois, Alexia agora adulta e com uma cicatriz na lateral da cabeça, trabalha como uma showgirl/stripper em um salão de automóveis. Alexia é bem brutal, digamos assim, e para poder discutir mais amplamente sobre o filme daqui pra frente, tentando ao máximo não revelar muito, julgo impossível não entrar no campo de spoilers, então você leitor está devidamente avisado.

Vincent Lindon em Titane (2021)
© NEON

Como consequência da animação de festivais, muito se diz como o longa é ‘’chocante’’, ‘’algo que nunca foi feito antes’’ e ‘’completamente bizarro’’. Ele pode ser chocante até certo ponto e bizarro com certeza, mas esses temas já foram discutidos antes e essa abordagem já foi feita, e Julia sabe e aproveita disso, afinal, o cinema moderno é uma reprodução interminável. Da forma como David Cronenberg lida com o fetiche em carros e na adrenalina mortal na sua obra-prima Crash, até da forma como o menos conhecido Tetsuo: The Iron Man de Shinya Tsukamoto coloca os homens-máquinas como corpos assassinos e destruidores vazando óleo, Titane é uma salada de ingredientes que já foram usados antes, mas que traz um novo sabor. Uma narrativa que pega da frieza e da brutalidade dessas inspirações para caminhar até um conto de amor incondicional e identidade, mas que nunca parece desfocado, talvez somente não explorado em seu extremo.

Julia faz de Alexia, mais precisamente da atriz brilhante Agathe Rousselle, uma performer em todo sentido da palavra, que faz do corpo dela a narrativa, que transita sobre as noções de identidade, sobre a noção do ‘’feminino’’ e do ‘’masculino’’, um vaso que vai se moldando: delicado e violento, repulsivo e sagrado, maleável e estático, quebrado e impenetrável, sujo e limpo. Alguém que clama por sua antipatia desde o primeiro momento, mas que cria naturalmente uma empatia porque afinal ela não é nada mais que esse corpo vagante, um conceito, um monstro com vergonha, com sede de aceitação e que passa a se adaptar.

O que significa ser carne e sangue, metal e óleo, o quão lindo e horroroso, afetuoso e violento é o caminho e a nossa transformação para atingirmos o nosso potencial máximo, onde nos sentimos mais confortáveis, na nossa pele. A destruição de si mesmo para o nascimento de um novo ser, de uma nova pele, da nova forma, ‘’estou aqui’’ diz o ator Vincent Lindon, que é digno de quase os mesmos elogios que Agathe aqui, para esse Ser antes dos créditos aparecerem.

Em Titane, Julia Ducournau apresenta a nova forma com brutalidade e afeto.

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