TIFF 2021 | Bergman Island e Memoria

O Festival de Toronto está quase chegando ao fim e nós esperamos que vocês estejam gostando da nossa cobertura. Estamos assistindo a grandes filmes e não podemos ficar mais gratos ao Festival e ao apoio de vocês. Lembrando que a nossa cobertura completa pode ser conferida aqui.

Sem mais delongas, comentários sobre os filmes: Memoria, de Apichatpong Weerasethakul; e Bergman Island de Mia Hansen-Løve.

MEMORIA (Apichatpong Weerasethakul)

© Cortesia do TIFF

Uma orquidófila escocesa que visita sua irmã doente em Bogotá, Colômbia, faz amizade com um jovem músico e um arqueólogo francês encarregado de monitorar um projeto de construção de um século de duração para um túnel através da cordilheira dos Andes. A cada noite, ela é incomodada por estrondos cada vez mais altos que a impedem de dormir.

“Memoria” inicia com um barulho estrondoso que acorda Jessica Holland (Tilda Swinton) de seu sono. A origem do som é desconhecida e qualquer tentativa de descrição parece estar fadada ao fracasso. “É como se uma bola caísse num placa de metal, dentro de uma câmara rodeada pelo mar.” tenta explicar Jessica, sem nenhum sucesso. Sua tentativa de replicar o barulho usando um software é tão inútil quanto, já que o barulho não para ser exatamente o mesmo quando ele resolve aparecer novamente. Qual a solução então? Ora, se entregar a essa sensação, aos mistérios da percepção. E assim vamos descobrindo, junto com a protagonista, o mundo novo que o cinema abre na nossa frente. Com toda certeza, estamos vendo mais um filme de Apichatpong Weerasethakul.

É interessante ressaltar as semelhanças entre “Memoria” e “A Morta-Viva”, grande filme de Jacques Tourneur. Não apenas a mulher-zumbi de Tourneur se chamava Jessica Holland, como ela também servia como uma ponte entre dois mundos, duas realidades – uma regida por leis físicas e outra não. Apichatpong traz aqui um filme novamente guiado por dualidades, assim como fez com seu debut “Objeto Misterioso ao Meio-Dia”. O passado e o presente, o dia e a noite, aquilo que podemos ver e aquilo que podemos apenas sentir. Essas dicotomias estão presentes na própria natureza, bastando então a câmera do cineasta tailandês mirar uma pequena pedra para que tudo seja evocado. Raramente seu cinema pareceu tão em paz, tão em equilíbrio consigo mesmo.

👍


BERGMAN ISLAND (Mia Hansen-Løve)

© Cortesia do TIFF

Um casal de cineastas americanos tira férias durante o verão para escrever roteiros de seus próximos filmes em um ato de peregrinação ao lugar que inspirou Bergman durante sua carreira. Conforme essas férias e seus roteiros avançam, as linhas entre a realidade e a ficção começam a se confundir com o pano de fundo da paisagem da ilha.

Anthony (Tim Roth) e sua esposa Chris (Vicky Krieps), vão a esse retiro na ilha que serviu como um ”grande palco” para o cineasta até sua morte, lá eles ficam hospedados na própria casa de Bergman e até dormindo na mesma cama em que ele filmou Scenes From a Marriage. O casal parece à beira de se separar, há essa certa frieza que ambos preferem ignorar e tirar o melhor disso, estabelecendo dinâmicas entre os dois: Anthony é a estrela, Chris é o apoio. Ele é um cineasta celebrado, despreocupado, confiante, escreve com facilidade. Chris não é conhecida se não por um estudante que ela conhece na viagem, ela carrega ansiedades, sofre pra escrever algo. Esse aspecto turístico da Ilha de Bergman é fundamental na narrativa, exprimi comportamentos dos personagens, revela o que os oprime e o que os liberta.

Bergman era produtivo ao extremo, mas ao tempo teve parceiras românticas e diversos filhos. Anthony também tende a essa produtividade, mas por outro lado, Chris, além sentir muita pressão pelo seu lado criativo, também se sente um fracasso como mãe. Chris brinca que quer ter diversos filhos com diversos homens, fica frustrada com o fato de como Cries and Whispers é torturante, ela não entende porque Bergman ‘não fazia filmes sobre felicidade’. As mulheres estão presentes e interessadas em todos esses pontos turísticos da ilha, mas é irônico que só os homens que discutem fervorosamente sobre Bergman no filme.

O bloqueio criativo de Chris é derrubado e ela começa a descrever uma narrativa para Anthony pedindo sua ajuda em finalizar ela, focada em um casal: Amy (Mia Wasikowski) e Joseph (Anders Danielsen Lie). Com Amy e Joseph, se reconectar deixa eles vivos e a distância dói imensamente, ela nem consegue dançar ABBA sem o medo de Joseph ir embora. Mas com Chris e Anthony as coisas estão cada vez mais frias. Em um momento do filme ela tenta seduzir Anthony, mas ele a ignora gentilmente voltando ao trabalho, ele não liga com quem ela passou a tarde inteira longe dele e até a provoca.

A linha que separa o casal de cineastas na ilha e o do roteiro de Chris começa a se desfazer: passado, presente e futuro, fantasia e realidade, fracasso e sucesso, paixão e indiferença. Mia Hansen-Løve não limita seus personagens e seus mundos, só da a eles dimensões, para que eles cresçam cada vez mais na cabeça do espectador. Como Chris termina a narrativa? Talvez entendendo que ela tem que deixar as coisas irem, contanto que ela continue de pé no chão, mas só dá pra concluir mesmo que Chris está muito contente em abraçar sua filha no momento.

O melhor e mais íntimo de Mia, uma celebração dos papéis de uma artista, de uma amante, de uma namorada, de uma esposa, de uma mãe. Um conto brilhante das frustrações criativas, sexuais e das diversas relações do feminino. Como os artistas masculinos são cultuados e como é esperado das mulheres espelhar eles para serem aceitas e assim cultuadas, idolatradas. Identidade e personas, trabalho e arte, ambição e desapego, lembranças e o agora: essa grande tortura e prazer que é viver.

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