Críticas

Não Olhe para Cima (Don’t Look Up) – Crítica

Adam McKay é, de certa forma, um autor controverso. O diretor, roteirista e produtor é amado por votantes e às vezes críticos, mas o público sempre se divide. No seu novo longa, Não Olhe para Cima (Don’t Look Up), com certeza não vai ser diferente. No filme distribuído pela Netflix, uma estudante de astronomia (Jennifer Lawrence) e seu professor (Leonardo DiCaprio) fazem uma descoberta surpreendente de um cometa do tamanho do Monte Everest orbitando dentro do sistema solar, mas logo descobrem também que na verdade ele está em rota de colisão direta com a Terra e que seu impacto vai causar a destruição do planeta. Embarcando numa turnê midiática com a ajuda do Dr. Oglethorpe (Rob Morgan), o outro problema é que ninguém, nem mesmo a presidente dos EUA (Meryl Streep) parece se importar para fazer algo.

De Vice a The Big Short, particularmente nunca estive no time dos defensores de McKay, mas surpreendentemente dessa vez certos ingredientes nesse prato me agradaram, ainda que não tenha me dado energia para defende-lo. Descobri somente depois que assisti ao filme que ele foi roteirista de Saturday Night Live por duas temporadas, então agora parece na cara demais (ironicamente, assim como o próprio filme) dizer que seu novo longa é como se o Saturday Night Live fizesse Melancholia. McKay obviamente além de dirigir, assina o roteiro ao lado de David Sirota e traz seus colaboradores prévios: seu editor característico Hank Corwin e o compositor Nicholas Britell. Em suma, você sabe o que você vai experienciar quando der play e de quebra, num ano cheio de grandes elencos, esse aqui de longe foi o mais caro e poderoso, com Jennifer Lawrence e Leonardo DiCaprio no volante.

Cate Blanchett, Tyler Perry, Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence em Don’t Look Up (2021)
© Netflix

Jennifer está de volta e ela faz Kate Dibiasky, a aluna do Dr. Randall, personagem de Leonardo. Ainda que sempre fui fã do trabalho da atriz, aqui ela faz Kate com uma sinceridade e equilíbrio tão visíveis que talvez seja porque não vejo ela na tela do cinema tem um bom tempo, mas realmente me cativou e serve como o ponto mais alto do filme. Leonardo também faz seu personagem na dose necessária, mas que vai ao oposto de Jennifer: espalhafatoso e exagerado, ainda que os dois operem de forma cômica e trágica. De novo, a inevitável comparação com a obra-prima de Lars Von Trier com as personagens de Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg. Mas das inúmeras obviedades do longa, já dá pra começar por essa: Kate é ridicularizada por explodir publicamente, enquanto Randall (completamente desequilibrado por trás das câmeras) vira um galã, um ícone. Usando desse exemplo, todo o resto tem a mesma intenção, tudo é jogado na sua cara como se um outdoor estivesse piscando na sua frente ”ISSO É UMA SÁTIRA DE COMO NÓS ESTAMOS CONDENADOS”. O humor do filme vai de comentários de spam que aparecem na live de uma Ariana Grande cantando a uma Jennifer Lawrence histérica que vira meme, e as ‘’críticas’’ vão de uma celebridade escandalosa na cadeira mais importante do mundo a republicanos atirando no cometa. E se você estiver disposto a se render a esse tipo de coisa por mais de duas horas, você vai se divertir, mas se você estiver buscando algum nível de profundidade e seriedade nessa sátira, você provavelmente vai sair muito frustrado.

Uma edição maluca de Corwin que escolhe uns planos tão estranhos de repente e que quando quer te manipular monta imagens reais (geralmente trágicas) do mundo moderno deixa tudo tão bagunçado que eu prefiro acreditar que McKay só quer fazer esse humor absurdo mesmo. Mas acho que vale voltar para o elenco, que além da trilha de Britell, é o ingrediente que funciona mesmo aqui ainda que com ressalvas: apesar de performances que beiram o ofensivo (Mark Rylance fazendo uma espécie de Mark Zuckerberg), a completamente robotizadas (Ariana Grande, que em defesa tem somente duas cenas) e no modo automático (Meryl Streep e Jonah Hill), o elenco todo parece estar se divertindo tanto que deixam o longa atraente por fim. Já pontuado como Jennifer Lawrence e Leonardo DiCaprio carregam muito bem o filme estando em tela 90% do tempo, eles não fazem isso sem a ajuda de uma Cate Blanchett fazendo uma apresentadora de uma espécie de TV Fama dos EUA que tem sei lá o que no rosto dela que a deixa parecendo com um filtro de Instagram, e a inserção de Timothée Chalamet perto do fim que tenta que dar um soco emotivo no clímax do filme, ainda que com um timing humorístico muito certeiro que não estamos acostumados do leque de personagens melancólicos do ator, fazendo um skatista gamer e evangélico (sim, essa combinação mesmo) que noiva Kate impulsivamente.

Jennifer Lawrence, Leonardo DiCaprio e Timothée Chalamet em Don’t Look Up (2021)
© Netflix

Organizando tudo isso e até mesmo escrevendo parece uma bagunça tão grande, com tudo tão ridículo, e é porque é mesmo. Não Olhe para Cima é completamente ridículo e tem a sutileza de um coice de um cavalo, e talvez é só por isso que ele funciona no seu máximo. É uma pena que na sua última parte ele resolve tentar emocionar, mas já está sem fôlego e muito menos tem o tato para fazer isso bem, pode deixar o cometa destruir tudo mesmo.

O que me surpreende ainda mais é que os votantes não estão engolindo completamente o elenco nas premiações (o longa já recebeu indicações no Critics Choice e Golden Globes), já que o filme em si aparece em tantas categorias (apesar de não ter sido tão bem recebido assim pelos críticos), inclusive na seleção anual do NBR e AFI. Você vai ver esse filme indicado em Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem e Melhor Canção Original, muito provavelmente Melhor Ator e talvez Melhores Efeitos Visuais e Melhor Trilha, mas claro, não deixe de acompanhar nossa cobertura dessa temporada, porque tudo muda o tempo inteiro.

Não Olhe para Cima é ridiculamente óbvio, mas funciona se você quiser que funcione.

Não Olhe para Cima (Don’t Look Up) fica disponível na Netflix a partir do dia 24 de dezembro.

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