Mostra de São Paulo 2020 – Semana #2

Em sua segunda semana, a 44º edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo seguiu com uma programação intensa em perspectivas. O Noite de Oscar conferiu filmes como Shirley, Nadando Até o Mar se Tornar Azul, DAU Natasha e DAU Degeneration, The Nose or Conspiracy of Mavericks, Druk (Another Round) e Siberia. Agradecemos novamente à Mostra pela disponibilização dos filmes e esperamos que o cinema continue existindo e resistindo a todas as adversidades.

Shirley, de Josephine Decker

Elisabeth Moss e Odessa Young em Shirley (2020)

★★★½

Estreado em Sundance, segundo longa da cineasta independente Josephine Decker é roteirizado por Sarah Gubbins, adaptado do livro de Susan Scarf Merrell que dramatiza a vida e o processo criativo de Shirley Jackson, autora de thrillers como The Haunting of Hill House e The Lottery. Conhecida por sua natureza sombria, a escritora Shirley Jackson (Elisabeth Moss) está escrevendo mais uma obra quando a chegada dos recém-casados Fred (Logan Lerman) e Rose (Odessa Young) atrapalha seu processo criativo e o seu conturbado casamento com o crítico literário e professor Stanley Hyman (Michael Stuhlbarg). O estilo presente em Madeline’s Madeline (primeiro longa da diretora) está visivelmente presente aqui. Sua câmera tremida gira em torno de seus personagens, focando nos rostos de seus atores, evocando um desconforto e buscando tirar o máximo de suas expressões. Aqui, com dois grandes nomes, isso funciona perfeitamente. Moss vem seguidamente entregando trabalhos impecáveis, em sua maioria com personagens imprevisíveis e descontrolados, aqui não é diferente: Shirley navega por uma gama de emoções, expressões e comportamentos imprevisíveis que evocam sozinhos o suspense e o desconforto que a narrativa almeja, o mesmo pode ser dito sobre Stuhlbarg e seu personagem, formando uma dupla explosiva e perfeita. Shirley é uma mistura de realidade e ficção, drama e suspense. Uma fantasia biográfica hipnotizante que é carregada pelas atuações da dupla principal, em harmonia com a abordagem e estilo de Decker. – Daniel Borela

Nadando Até o Mar se Tornar Azul, de Jia Zhangke

Frame de Nadando Até o Mar se Tornar Azul (2020)

★★★½

Quando eu era pequeno, o mar era amarelo, mas os livros diziam quer era azul. Gostavamos de nadar aqui. Um dia, acho que vou nadar até o mar ficar azul” Através de conversas com pessoas de sua cidade natal, Jia Zhangke percorre a história do local e do país usando pequenos eventos culturais como pano de fundo. São relatos de momentos das vidas desses homens e mulheres, que foram ou ainda são pessoas ordinárias, que percorrem o documentário, formam o tema do longa e culminam num estudo que, embora desinteressante no começo, se mostra instigante nas suas partes finais. Sendo dividido em capítulos, tal como um livro, o longa possui uma abordagem muito carinhosa às figuras entrevistadas (detalhe que pode ser reparado graças aos enquadramentos e abertura para esses relatos íntimos) e à província chinesa na qual Jia faz questão de filmar com uma beleza naturalista (Navegando pelas paisagens, prédios, casas e ruas com calma) e transforma-se em pura poesia. Uma das escolhas mais certeiras da seleção da Mostra, Nadando até o Mar se tornar azul é uma homenagem reflexiva à Shanxi e à cultura como registro histórico. – Pedro Cardote

DAU. Natasha e DAU. Degeneration, de Ilya Khrzhanovsky e Jekaterina Oertel

Frame de DAU. Natasha (2020)

★★★

O Projeto DAU consiste consiste em mais de 700 horas de material filmado em 35mm, distribuido em filmes, séries de TV e uma série de documentários científicos e artísticos, além de outros projetos transdiscplinares. A produção, que pretendia ser uma adaptação cinematográfica da vida do físico Lev Landau, se tornou a “Sinédoque, Nova York” do diretor Ilya Khrzhanovsky: um mundo cinematográfico próprio, onde ele tinha poder de ver e alterar tudo. Khrzhanovsky construiu uma imitação de um instituto científico na Ucrânia, onde mais de 400 pessoas viveram em condições similares às da União Soviética das décadas de 30 até 60. Os atores viviam no instituto diariamente – eram cientistas, garçonetes, ex-agentes da KGB, faxineiras, vendedoras. Em dois anos, foram filmados 700 horas de interações, que foram resumidos em 13 longas. Os dois primeiros, DAU. Natasha e DAU. Degeneration, foram exibidos na Berlinale 2020 e trazidos para Mostra de SP.

Natasha é uma introdução adequada para o universo de Khrzhanovsky: instigante, tedioso, perturbador, explícito. Acompanhamos as garçonetes Natasha (interpretada por Natalia Berezhnaya) e Olga (Olga Shkabarnya) presas num fluxo de acontecimentos – alguns bons, outros desconcertantes – que se desenrolam na cantina do Instituto. O trabalho de fotografia de Jürgen Jürges (premiado em Berlin) é o destaque do projeto, capturando bem a atmosfera distópica e mantendo uma unidade visual bem interessante durante o percurso do filme. Se Natasha é o prólogo, DAU. Degeneration é o final, a degeneração de fato do Instituto. Nas colossais seis horas de duração, Khrzhanovsky alterna entre o realismo documental de Natasha e uma trama mais ficcional, com o propósito de levantar discussões diversas dentro do campo social e político de uma URSS falida. Essa dialética fica bem clara quando o filme involuntariamente se divide em blocos bem definidos (oque é filme, oque é “real”), raramente trazendo uma união homogênea entre a compreensão e o simples olhar. Essa perspectiva quase voyeresca do longa é sua ideia mais interessante, porém não é o suficiente pra disfarçar o desejo explorativo do diretor, que deixa isso transbordar nas cenas de violência explícita dos longas. Tudo é tão pré-concebido pra chocar que perde autenticidade, o conceito chave tão promovido pela produção. Uma sequência específica, envolvendo um grupo real de neo-nazistas, é o suficiente inclusive pra levantar questionamentos a respeito da ética na hora de fazer cinema. No fim, o projeto DAU pode ser definido contraditoriamente pela sua própria crítica: aquilo que queremos ver e, ao mesmo tempo, não queremos. A Mostra desse ano definitivamente estava para polêmicas. – André Luis

The Nose or Conspiracy of Mavericks, de Andrey Khrzhanovsky

Frame de The Nose or Conspiracy of Mavericks (2020)

★★★½

Em “O Nariz ou a conspiração dos dissidentes  (The Nose or Conspiracy of Mavericks)”, dirigido pelo russo Andrey Khrzhanovsky, acompanhamos o século XX na Rússia e o reinado de terror de Josef Stalin por meio de fragmentos inspirados no clássico O Nariz, escrito por Nikolai Gógol em 1836. Com uma estrutura narrativa pouco convencional, o longa tem uma pegada metalinguística muito interessante ao misturar a animação com a vida real, trazendo um aspecto documental para o filme e mostrando cenários históricos, biografias de personagens da época e obras de artistos russos. Com um trabalho de animação fantástico e muito bem trabalhado, o diretor Andrey juntamente com o compositor Dmitri Shostakovirch, que traz uma pegada musical com ópera para o filme, conseguem estabelecer muito bem a história que querem contar. Com uma montagem frenética, a obra consegue entreter ao mesmo tempo que ensina sobre uma parte tão importante da história.  Infelizmente, depois de meia hora de filme, a obra começa a se tornar um pouco maçante e cansativa. Isso porque o roteiro se torna expositivo e sobrecarregado de informações redundantes, que já foram mostradas anteriormente por meio das composições animadas ou dos pedaços documentais. Apesar disso, o filme, que tem um trabalho de voz maravilhoso, é uma animação que foge dos padrões que a maioria das pessoas está acostumada e vale muito a pena ser assistida. – Stephanie Comin

Druk, de Thomas Vinterberg

Thomas Bo Larsen, Magnus Millang, Susse Wold e Mads Mikkelsen em Druk (2020)

★★★½

Uma direção e um roteiro cativantes se juntam para que o telespectador reflita sobre a vida, fazendo de Druk um filme cheio de camadas e com momentos lindíssimos que mostram como a vida humana, mesmo com tantos problemas e algumas escolhas erradas, vale a pena ser vivida. Confira a crítica completa de Stephanie Comin aqui.

Siberia, de Abel Ferrara

Willem Dafoe em Siberia (2020)

★★★★

Siberia, o novo filme de Abel Ferrara, trabalha através do inconsciente do artista uma viagem entre criador e criatura. A escolha de sua estrela não poderia ser mais simbólica e certeira: DaFoe é o muso atual de Ferrara e isso intensifica a jornada assistida já que o ator interpretou um arquétipo do diretor em Tommaso e esteve fortemente presente nos seus longas mais recentes. Embora um pouco maçante e denso em alguns momentos, a mão firme de Ferrara nunca deixa o filme cair num território inacessível ou menos interessante. O diretor navega entre as concepções e metáforas sobre o processo de criar e da arte como um todo tentando reconhecer em Siberia sua própria filmografia e obra. – Pedro Cardote

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