Noite de Oscar

O seu maior companheiro da temporada de premiações

Mostra de São Paulo 2020 – Semana #1

Em sua 44º edição, e pela primeira vez online, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo começou com uma semana de filmes diversos em temas e polêmicas. New Order, de Michel Franco e filme de abertura do festival, olhou para os conflitos de classe de maneira explorativa e violenta. Casa de Antiguidades, filme brasileiro de João Paulo Miranda Maria abre discussões sobre ancestralidade e memória. Outros filmes como Miss Marx, Kubrick v Kubrick, True Mothers e The Trouble with Being Born também foram exibidos e cada um conta com suas peculiaridades. Confira analises detalhadas desses seis filmes e fique ligado no Noite de Oscar para a cobertura da segunda semana do festival – que promete ser igualmente interessante!

Miss Marx, de Susanna Nicchiarelli

Romola Garai em Miss Marx (2020)

★★½

Oque fazer quando o tradicionalismo é intrínseco a forma do filme? Miss Marx, novo filme de Susanna Nicchiarelli, decide fazer justiça a vida de Eleanor Marx, tentando trazer uma visão individual para alguém que infelizmente ficará conhecida somente como a filha de Karl Marx. O problema é que a visão “única” da diretora não passa de gimmicks batidos: as músicas punk que tocam ali e aqui, os figurinos que constatam com a morbidez da época, etc. Quando esses elementos não estão em cena, a diretora insere momentos extremamente didáticos a respeito das posições políticas da personagem, caindo no buraco (bem fundo) do “gênero” biográfico. O filme todo soa como um morde e assopra, uma hora punk, outra hora comum, uma hora revolucionário, outra hora convencional. O pior é que os usos desses elementos são tão lineares, usados de forma tão previsíveis durante o filme, que não dá nem pra assumir uma lógica contraditória de fato no longa – pois tudo cai num sentido bobo de mero contraste. Miss Marx parece nunca ter certeza do que é, oque acaba refletindo na própria Eleanor Marx: uma mulher concreta, relativamente tradicional, ou uma personalidade automatizada de acordo com as sofisticações batidas do cinema contemporâneo? Romola Garai, interprete de Eleanor, é inocente: se não fosse por ela, oque é médio seria ruim. – André Luís

Trouble of Being Born, de Sandra Wollner

Lena Watson em The Trouble of Being Born (2020)

★★

Sabe aqueles filmes que parecem funcionar melhor como curta-metragem? Trouble of Being Born é com certeza um deles. O filme dirigido e escrito por Sandra Wollner (em parceria com Roderick Warich) polemizou no Festival de Berlin esse ano, com acusações que vão de apologia a pedofilia à exploração da atriz que estampa o filme. No entanto, dentro das várias críticas possíveis para a produção, essas com certeza são as menos válidas. A história do filme é um soa interessante para quem curte ficção-científica: Elli é uma androide e mora junto com um homem que chama de pai. Eles nadam juntos, dormem juntos e possuem uma relação desconfortável e notavelmente incestuosa. Obviamente, vários cuidados foram tomados. A diretora filma as cenas de maneira até bem respeitosa e a produção escondeu o nome da atriz de apenas 10 anos juntamente com seu rosto (que foi modificado através de manipulações digitais). A história do filme, no entanto, não para aí. Sandra expande The Trouble of Being Born na segunda metade, mudando a história e expandindo os conceitos de memória e luto para ambientes bem diferentes do primeiro terço. Os erros surgem na falta de dosagem da diretora com os “filtros” art-houses, já quase um pré-requisito em festivais europeus. Se Sandra maneirasse nessas falsas sofisticações – câmeras tremidas, planos vazios, etc – o filme, que instiga muito bem na sua primeira metade, seria uma boa adição pros projetos sci-fi dos últimos anos. No entanto, The Trouble of Being Born termina com uma sensação de redundância, já que Sandra de nenhuma maneira responde as perguntas que faz e insiste nos mesmos artifícios inconclusivos. Soa até como se a diretora gostasse da atenção que a recepção infeliz de seu filme gera, ficando na campo das aparências ao invés de se preocupar em adentrar o da análise. – André Luís

True Mothers, de Naomi Kawase

Shizue Asami e Hikari Katakura em True Mothers (2020)

★★½

A premissa de True Mothers, novo filme dirigido por Naomi Kawase, é interessante. Satoko (Hiromi Nagasaku) e seu marido Kiyokazu (Arata Iura) decidem adotar um menininho, após inúmeras e fracassadas tentativas de engravidar. Alguns anos depois, a vida do casal é abalada por uma garota desconhecida e ameaçadora, Hikari, que finge ser a mãe biológica da criança. Satoko, então, resolve confrontar Hikari diretamente. O filme acerta justamente nessa relação entre as mães, que engrandece o filme quando entra em cena. No entanto, por escolher compor o seu filme de forma extremamente melodramática, Kawase parece agir somente através do mecanismo da pena, estragando a organicidade das ações. Todos os planos são tão plasticamente pré-calculados que tudo se torna previsível, até mesmo a trajetória das duas mulheres (que ainda por cima é contada através de flashbacks). Talvez se houvesse algum refino, uma maior polidez visual e textual, teríamos uma produção de fato sensível e não exaustivamente piegas. – André Luís

Kubrick by Kubrick, de Grégory Monro

Frame de Kubrick v. Kubrick (2020)

★★

Uma mistura de podcast com autorismo de grife, Kubrick by Kubrick já deixa claro nos seus primeiros minutos que não será nada além da entrevista de Michel Ciment com o diretor. Oque não é necessariamente uma má ideia, já que sempre vai ser interessante ver a obra de Kubrick comentada por ele mesmo. No entanto, as imagens usadas por Grégory Monro soam tão complementares, tão dependentes do que está sendo falado na narração, que a dinâmica do documentário se esvai e leva junto a lógica cinematográfica do longa. A escolha da produção de usar a sala de “2001: Uma odisseia no Espaço” como um museu lotado de peças valiosas (os filmes, os ícones do diretor, etc) soa tão burocrática e cafona que é difícil achar que de fato existiu um empenho dos realizadores em contar de forma singular a história do diretor. A história de uma carreira marcante contada da forma mais dispensável possível. – André Luís

Casa de Antiguidades (Memory House), de João Paulo Miranda Maria

Antonio Pitanga em Casa de Antiguidades (2020)

★★

Casa de Antiguidades é, de muitas formas, o filme brasileiro do momento. Às vezes visceral, às vezes gentil, quase sempre óbvio. Acima de tudo, uma produção extremamente movida pela necessidade de catarses por intermédio do cinema – algo que involuntariamente a realidade política do país reflete para a toda cultura. O diretor, João Paulo Miranda Maria, não inventa a roda: Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, também levou os festivais europeus a altura ano passado com sua subversão pré-arquitetada e seu rebeldismo domado. No entanto, aquela onda de revolta que carregou Bacurau nos cinemas por todo o Brasil, deixa aqui o diretor paulista na mão – restando apenas a simplicidade de suas ideias.

O longa é conceituado de forma interessante: um mergulho sensorial na ancestralidade do povo brasileiro. No entanto, os problemas surgem quando o diretor sacrifica a unidade orgânica da história por uma série de choques com sombras de valência política. Antonio Pitanga defende o protagonista Cristovam com unhas e dentes, mas terminamos o filme com a sensação de que nem o diretor se importa de fato com a história do homem. No meio de truques visuais baratos, analogias risíveis e de momentos dolorosamente óbvios, é difícil não encarar o personagem como um arquétipo, um peão com seus movimentos pré-calculados. Não somente ele, mas todos os moradores do vilarejo onde o trabalhador reside. O pior é que tudo ficaria um pouco menos pior se a produção refletisse a respeito de algo simples: a contradição. Ao se apressar e recusar algo tão intrínseco ao ser como o conflito, o diretor sabota o próprio filme: como falar de ancestralidade, como falar do povo, como falar da nossa casa de antiguidades, sem falar da contradição? – André Luís

New Order, de Michel Franco

Naian Gonzalez Norvind em New Order (2020)

Escrito e dirigido por Michel Franco, estrelado por Naian González Norvind e Diego Boneta, Nova Ordem parte da seguinte premissa: um casamento da alta sociedade é interrompido pela chegada de convidados indesejáveis. É um conceito interessante de primeira mão, mas tão mal conduzido que chega a ser ofensivo.

O ponto de partida do longa é genuinamente tenso, e de um ponto de vista cinematográfico, é feito de forma decente, com Franco criando uma atmosfera que vai esquentando aos poucos naquela festa e com aqueles personagens despreocupadas com o que está acontecendo fora dela. Já o resto do filme é um pornô de tortura que recorre ao shock-value e a exploração da classe trabalhadora que está sedenta por revolução, e nesse caso em específico, a população indígena mexicana. O que piora tudo ainda é como essa família de alta classe é o único lado com o qual Franco escolhe ter empatia, e a população indígena mexicana da classe trabalhadora é vista apenas como uma ameaça, e sem qualquer tipo de caracterização.

As visões políticas de Franco são tão retrógradas e confusas, sempre caindo num olhar completamente sádico para ‘’desenvolver’’ a história e seus personagens. Franco aqui não tem uma ideia interessante que quer ser passada, talvez só as de que ‘‘todos somos sujos moralmente’’ ou “vou colocar minha câmera em uma mulher sendo torturada de diversas formas sem que haja valor”. Em Nova Ordem há apenas esse exercício de estilo vazio de Franco, usado somente para deixar o espectador desconfortável, sem troco algum, durante o filme inteiro. – Daniel Borela

André Luis

Gosto de rinha de filme.

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