Festival de Londres 2020 – Semana #2

Dando continuidade a nossa cobertura do BFI London Film Festival 2020 (Festival de Londres 2020) e concluindo a mesma a partir desse post, tivemos o privilégio de prestigiar mais filmes nessa segunda semana: o novo curta do espanhol Pedro Almodóvar, The Human Voice; um longa de Miranda July, Kajillionaire; mais um filme pertencente à antologia de Steve McQueen, Lovers Rock; e um documentário por Jerry Rothwell, The Reason I Jump. Confira nossos comentários abaixo.

The Human Voice, de Pedro Almodóvar

Tilda Swinton em The Human Voice (2020)

★★★★

Gravado no meio da pandemia e finalizado a tempo do Festival de Veneza, The Human Voice é o novo curta de Pedro Almodóvar, estrelado por Tilda Swinton. Uma mulher passa o tempo isolada num apartamento luxoso (que também possui um cenário teatral) ao lado das malas e roupas de seu ex-amante. Seu único companheiro é Dash, o cão inquieto desse ex-amante. Com o típico melodrama de Almodóvar, o curta lida com a paranoia, solidão e ansiedade pós-isolamento. Tilda está uma maravilha como sempre, é impossível tirar os olhos da atriz, que te coloca num feitiço por trinta minutos que passam voando. A personagem sem nome navega por várias emoções, da fúria à alegria, e tem ajuda de elementos da cultura pop como DVDs e livros para construir essa identidade enigmática. Com uma abordagem muito teatral, Pedro adapta o texto da peça de mesmo nome de 1930 de Jean Cocteau e usa alguns de seus colaboradores prévios: o diretor de fotografia José Luis Alcaine e o compositor Alberto Iglesias. A trilha, as cores vibrantes e o cenário único acompanhados desse texto adaptado pra um tempo de pandemia todos contribuem para tornar o curta muito mais memorável. Almodóvar faz mais em trinta minutos do que muitos fazem com muito mais tempo, deixando o espectador com o desejo de que fosse um longa. – Daniel Borela

Kajillionaire, de Miranda July

Gina Rodriguez e Evan Rachel Wood em Kajillionaire (2020)

★★★★

Estreado em Sundance no começo do ano, escrito e dirigido por Miranda July, Kajillionaire é o terceiro longa da americana. Uma família de três vigaristas isolados socialmente se encontra com uma mulher que mexe com a família, trazendo todo tipo de animação e tensão à mesma, junto disso, surgem planos para novos tipos de assaltos. Evan Rachel Wood entrega uma das suas melhores atuações com Old Dolio, uma menina-mulher que está desconfortável no próprio corpo, anseia por afeto mas ao mesmo tempo é incapaz de aceitá-lo, pois ela foi ensinada desde cedo a não se destacar socialmente (não se pode roubar chamando a atenção). Mas agora ela não quer mais ser invisível, e a chegada de Melanie (Gina Rodriguez) é uma implosão para ela. Com um humor trágico na medida certa, Miranda pega personagens abertamente estranhos e os transforma em personificações encantadoras das fragilidades humanas. Como já mencionado, o destaque do elenco é claro para Evan, mas todos os outros atores entregam ótimos trabalhos, e o nível do longa aumenta ainda mais com mais uma linda trilha de Emile Mosseri. – Daniel Borela

Lovers Rock, de Steve McQueen

Micheal Ward e Amarah-Jae St. Aubyn em Lovers Rock (2020)

★★★

Continuando a série Small Axe, Steve McQueen dirige, escreve e produz Lovers Rock. Ambientado durante uma festa noturna num bairro afro-caribenho em Londres, o filme – que possui apenas uma hora de duração – se movimenta através do fluxo das músicas da cabine de DJ, indo e vindo, mergulhando numa energia contagiante do romance entre Martha (Amarah-Jae St. Aubyn) e Franklyn (Micheal Ward). Assim como o filme anterior (Mangrove), Lovers Rock é contornado pela segregação social da população negra no Reino Unido durante a década de 80. No entanto, enquanto no primeiro filme isso se torna o pivô da história, aqui isso aparece em momentos específicos soando como um mero “lembrete”. A casa e o ambiente externo se comportam como realidades distintas, porém Mcqueen nunca declaradamente assume uma ou outra como a realidade factual. Isso é importante pois ajuda a construir os histéricos minutos finais, aonde a casa se mescla com o externo, a harmonia se junta com o caos, gerando como sub-produto um protesto político bruto e magnético. Esse somatório de experiencias distintas, a noite que varia de Kung Fu Fighting a The Revolutionaries, é o que torna Lovers Rock tão completo e satisfatório de assistir. – André Luis

The Reason I Jump, de Jerry Rothwell

★★★½

Dirigido por Jerry Rothwell e baseado em um livro do mesmo nome, The Reason I Jump é um documentário sobre a história de pessoas autistas, suas dificuldades e superações. Não tenho familiaridade com o livro escrito por Naoki Higashida e David Mitchell, então não farei comparações. Acompanhado por uma narração que faz a imersão no longa ser ainda maior, o filme é bem educativo e sensível ao retratar o autismo, sempre deixando claro como esse transtorno de desenvolvimento funciona e como as pessoas retratadas no documentário lidam com isso. O diretor teve uma visão bem humanizada, mostrando o autismo como um mundo além do nosso e usando elementos comunicativos como música e a natureza para exemplificar o transtorno e mostrar todas as superações que as pessoas autistas lidam diariamente. The Reason I Jump é importante, educativo, sensível e muito necessário, além de contar histórias que merecem destaque, o documentário se propõe a elevar a discussão a outro nível mostrando um lado da história ainda muito negligenciado. – Stephanie Comin

Nomadland, de Chloé Zhao

Frances McDormand em Nomadland (2020)

A vitalidade do filme corre nas veias da comunidade, desse povo que mesmo vivendo na margem atinge uma espiritualidade alheia as nossas compreensões. Os olhares, os gestos e as histórias dos nômades são as únicas formas de expressão necessárias. Nomadland, no fim, é bem sucedido quando olha para o povo como ele é e não como ele acha que é. Confira a crítica completa por André Luis.

Ammonite, de Francis Lee

Kate Winlest e Saoirse Ronan em Ammonite (2020)

Existe uma certa atração pelo longa, mas trata-se mais de um encantamento pelo seu potencial do que pelo conteúdo entregue. No geral, Ammonite tenta expressar, em sua duração, um romance vívido, mas falha em simbolizar e demonstra-lo na tela, tendo que se escorar na sublime atuação de Winslet. Com poucos momentos de intimidade genuína e vida, Ammonite logo será esquecido, assim como os fósseis estudados por Mary Anning. Confira a crítica completa por Pedro Cardote.

A cobertura do festival se encerra por aqui, e o Noite de Oscar gostaria de agradecer ao BFI.

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