Duna – Crítica

Dirigido por Denis Villeneuve, com roteiro assinado pelo mesmo junto de Jon Spaihts e Eric Roth, Duna (Dune) é a primeira parte de um plano maior, a adaptação da primeira metade (que já clama pela segunda parte) da obra homônima de Frank Herbert, publicada em 1965. Num futuro distante da humanidade, o duque Leto Atreides (Oscar Isaac) aceita a administração do perigoso planeta deserto Arrakis, que porta a única fonte da substância mais valiosa do universo, “especiaria”, uma droga que prolonga a vida humana expande a mente e permite a viagem interplanetária. Embora Leto saiba que a oportunidade é uma armadilha plantada por seus inimigos, os Harkonnen, ele leva sua concubina Bene Gesserit, Lady Jessica (Rebecca Ferguson), o filho e herdeiro Paul (Timothée Chalamet), e seus outros conselheiros mais confiáveis para Arrakis, também conhecido como Duna.

Adaptar a obra que foi fonte de incontáveis outras criações, sendo as mais conhecidas Star Wars e Game of Thrones, foi sempre um desafio. Do filme que nunca viu a luz do dia de Alejandro Jodorowsky ao de 1984 de David Lynch (que o próprio detesta hoje), uma adaptação satisfatória parecia distante, mas mesmo com vários contras, Villeneuve aceitou o desafio.

Talvez o que inevitavelmente faz o longa ter sucesso é que Denis, desde adolescente, é um nerd de Duna. Ele diz ser um projeto pessoal, que sonhava fazer a adaptação desde jovem. Ele entende completamente a complexidade desse universo e a densidade da obra de Herbert, e por isso a traduz visualmente e textualmente pelas lentes criativas que já é de costume do cinema dele, modernizando na dose perfeita, deixando a narrativa mais objetiva ao mesmo tempo que todo a essência fica, não deixa nada passar e prepara muito terreno pela frente.

Villeneuve filma essa vastidão e imensidão dos terrenos e dos palácios interplanetários de forma que deixa eles inalcançáveis e assustadores, tudo parece tão grande, rico, te sugando a cada plano pra esse mundo misterioso e perigoso. Ao mesmo tempo o sentimento é de que ele não quer te distrair por muito tempo, ele volta e nos coloca de pés no chão, com a câmera nos rostos dos atores tirando cada emoçãozinha e gesto deles fazendo com que tudo, desde os mínimos detalhes na casa Atreides aos olhos furiosos de Paul, digam coisas que os diálogos não explicitam.

Rebecca Ferguson, Zendaya, Javier Bardem e Timothée Chalamet em Dune (2021)
© Warner Bros.

Antes de ser sobre um jovem ”messias”, Duna é sobre as mulheres. De bruxas que agem pelos próprios interesses manipulando uma galáxia inteira, a uma ecologista que conhece o deserto na palma de sua mão. De uma menina misteriosa que apresenta o universo e seus conflitos para os espectadores na abertura do filme e vive nas visões e sonhos do protagonista, a uma mãe (bruxa e guerreira) que carrega toda a responsabilidade de ter dado à luz a um menino que pode ser o Escolhido, quem puxa as cordinhas da narrativa são as mulheres. Não que ele precisasse fazer essas escolhas para deixar esse fato mais claro, mas Villeneuve acentuou isso ao adaptar a obra fazendo de Liet Kynes (Sharon Duncan-Brewster) uma mulher no longa e ao dar mais sentimentalismo para Lady Jessica, tirando a ênfase de ‘concubina’ dela.

O que talvez não venha como surpresa para aqueles que conhecem o livro, mas aqui na adaptação talvez fique até mais proeminente, é como a narrativa é brutal e sinistra. Da escolha de cores mais escuras e cenas filmadas na penumbra, a uma sequência de cenas que só acabam em morte, violência e destruição, o filme não te deixa respirar. Mas não poderia ser diferente de uma história que começa predizendo uma tragédia.

Por causa desses fatores talvez não seja um filme tragável para alguns, principalmente para aqueles que já não tem muito apreço aos outros filmes do cineasta como Blade Runner 2049, mas aqueles que estão dispostos a se entregar ao ‘’poder do deserto’’ vão se deliciar em todos os sentidos nesse espetáculo. Duna é em sua raiz um projeto arriscado, talvez ambicioso demais e com um charme específico, mas é exatamente o que o cinema, principalmente o blockbuster, precisa agora: de alguém que tem maestria nas menores às maiores produções, que preza pela experiência que é a tela grande e que não tem medo, porque ‘’medo é o assassino da mente, medo é a pequena morte que leva à aniquilação total’’.

A trilha de Hans Zimmer, que inova usando de vocais humanos como ‘’novos instrumentos’’, deixa tudo mais exagerado e fora desse mundo. O elenco escolhido a dedo não poderia ser mais certeiro, da figura assustadora que é a personagem de Charlotte Rampling, que ainda que apareça poucas vezes faz, fora do frame e nele, uma grande marca, a Timothée Chalamet que tanto estamos acostumados com sua delicadeza e introspecção, faz um jovem robusto e que se impõe e se rende a sua condenação cada vez mais. Não podendo deixar de destacar claro Rebecca Ferguson, que vem tendo uma sequência de performances e personagens incrivelmente charmosos e complexos e aqui não é diferente, carregando o filme em vários sentidos, junto de Timothée.

Villeneuve não tem um histórico invejável com a temporada de premiações, mas também não é de se jogar no lixo de forma alguma. Com esse filme parece que deve acontecer com mais força pelo menos, você deve ver esse filme indicado em várias categorias: espere por indicações em Melhor Filme, talvez Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado mas em todas as categorias técnicas sem dúvidas, dificilmente vai sair de mãos abanando dessa temporada.

Em Duna, Denis Villeneuve faz cinema épico no seu melhor: gigante e fundamentado.

Duna (Dune) estará nas salas dos cinemas brasileiros a partir do dia 21 de outubro.

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