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O seu maior companheiro da temporada de premiações

Crítica – Nomadland

Um retrato do espírito livre dos nômades norte-americanos, contraposto à exploração derivada do gig economy, Nomadland é o novo filme da diretora Chloé Zhao (The Rider, Songs My Brothers Taught Me). Assim como seu último filme, a grandeza do oeste americano é cenário de uma abordagem neo-realista que mistura atores profissionais e não-atores, realçando a fragilidade da linha divisória entre ficção e realidade. A produção adapta o livro de Jessica Bruder, Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century, um trabalho não-fictício de cunho investigativo a respeito das condições dos nômades norte-americanos e dos trabalhadores temporários da Amazon. A escolha estilística da diretora casa bem com o material adaptado, posicionando de forma bem natural a personagem fictícia Fern (Frances McDormand) com os nômades reais do livro de Bruder: Linda May, Charlene Swankie, Bob Wells, etc.

Nomadland
Frances McDormand em NOMADLAND. Foto por Joshua James Richards. © 2020 20th Century Studios

O filme, em plano geral, gira em torno de Fern: uma viúva de 61 anos que perde tudo quando sua cidade (Empire, Nevada) é apagada do mapa com o fechamento de uma importante fábrica de gesso da U.S. Gypsum. Tomando então sua van como casa, Fern viaja pelas badlands de Dakota do Sul, passando pelo deserto de Nevada e ao noroeste do Pacífico, descobrindo um senso de comunidade e uma conexão não-material com a natureza através de seus companheiros nômades. Em entrevista sobre o filme, Chloe Zhao declarou: “Por 4 meses, nômades vieram e se foram enquanto filmamos e viajávamos […] Eles deixaram histórias e sabedoria na frente e fora das câmeras. Tendo crescido nas cidades da China e da Inglaterra, sempre fui profundamente atraída pela estrada aberta – uma ideia que considero ser essencialmente americana – a busca sem fim pelo que está além do horizonte.”

O que torna o filme interessante é seu apreço por essas pessoas, a dedicação de escutar as histórias de quem teve o seu sonho americano negado. Não utilizando essas vidas como um meio para um fim qualquer, a força de Nomadland está na busca pela dignidade desses indivíduos que normalmente são reduzido a peões de uma crítica à exploração do capitalismo. Zhao entende que isso já é intrínseco no olhar dessas pessoas, é obviamente a causa da situação que elas se encontram. Seria contraditório, então, rodar um filme inteiro explorando quem já é explorado.

Seria equivocado, no entanto, afirmar que o filme não possui raiva ou indignação. Por mais que Zhao não vocalize (tanto) sua crítica, a dialética fica óbvia no contraste dos planos assépticos e mórbidos dos centros da Amazon com as sequências vivas e afetuosas da comunidade nômade. O filme fica mais interessante ainda quando ela insere essas relações comunitárias delicadas dentro de algo tão bruto quanto esses centros de distribuição. É um filme que, de tão vidrado na vida dessas pessoas, acaba levando consigo as contradições que as políticas liberais norte-americanas geram para os trabalhadores.

Não existe nada mais forte do que escutar aquelas pessoas e suas histórias. Todos os seus sonhos, suas paixões, seus medos. É inclusive quando o filme foge disso que ele perde sua força: as cenas malickianas de Fern, próximas ao final, são de uma sofisticação desnecessária. A vitalidade do filme corre nas veias da comunidade, desse povo que mesmo vivendo na margem atinge uma espiritualidade alheia as nossas compreensões. Os olhares, os gestos e as histórias dos nômades são as únicas formas de expressão necessárias. Nomadland, no fim, é bem sucedido quando olha para o povo como ele é e não como ele acha que é.

★★★½

Chances

Altas chances de vermos esse filme fazer o circuito completo da temporada: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado. O primeiro ganhador, no mesmo ano, do Leão de Ouro de Veneza e do People Choice Awards do TIFF.

André Luis

Gosto de rinha de filme.

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