Crítica – I’m Thinking of Ending Things

Será que o cinema, ou o que resta dele, é hoje incapaz de sobreviver sem as muletas da literatura e do teatro? […] O problema apresentado à nossa reflexão não é, no fundo, tão novo assim: é, a princípio, o da influência recíproca das artes e da adaptação em geral.

(BAZIN, ANDRÉ. For an Impure Cinema: In Defence of Adaptation)

A busca por si mesmo, dentro de um contexto industrial, é o pivô de grande parte dos filmes dirigidos e/ou roteirizados por Charlie Kaufman. Seja através da transformação (Being John Malkovich) ou de mera reflexão (Synecdoche, New York), seus personagens – normalmente artistas neuróticos – buscam refúgio da relação catastrófica que possuem com o mundo externo. Seu novo filme, I’m Thinking of Ending Things, continua essa saga de exploração da condição humana, colocando em voga o papel da arte na jornada de auto-descobrimento dos indíviduos.

Em mais de duas horas, o filme alterna entre pontos de vista enquanto narra a relação de Jake (Jesse Plemons) e de Lucy (Jessie Buckley). O primeiro gosta de musicais. A segunda, quer acabar com as coisas. Seja numa viagem interminável de carro ou num jantar excessivamente excêntrico, Kaufman estrangula Lucy numa relação que já parece ter terminado, porém que ela não consegue escapar. Sempre sentada no banco de carona do carro, ela nunca possui o controle de onde está indo. Não possui controle das suas obras, nem mesmo de seus próprios argumentos. Seu monólogo sobre A Woman Under Influence, que ocorre na metade do filme, é meramente uma cópia do artigo da crítica Pauline Kael, publicado em 1974. Lucy já não sabe qual parte dela é ela e qual parte é Jake. O contrário é da mesma forma válido. Jake não sabe qual parte sua é ele e qual parte é Lucy.

Vivemos tantas vidas, a vida acadêmica, a vida digital, a vida pessoal, que dificilmente conseguimos manter uma divisão clara de cada. Do mesmo modo, somos tão bombardeados por produtos audiovisuais que se torna quase impossível quantificar o impacto disso em nosso agir, em nosso pensar. Um musical como Oklahoma!, um poema que vimos tempos atrás, uma crítica de um filme que gostamos muito. Toda essa multiplicidade do audiovisual são pequenos reflexos de nós mesmos que quando unidos nos torna quem somos. E, de forma natural, buscamos isso em outros, mesmo que essa busca não leve em nada. Mas como podemos estar sozinhos quando sabemos que estamos conectados pelas mesmas coisas?

I’m Thinking of Ending Things vagueia pelas individualidades das experiências de cada um, buscando na mente humana não oque se criou e sim oque se adaptou. É uma adaptação sobre adaptação, as vezes cínica, as vezes espetacularmente humana. Kaufman se perde muitas vezes, no seu tom auto-indulgente, na sua posição extravagante, nos seus mecanismos que mais distanciam do que impressionam. Mas quando a ironia juvenil é abandonada, o filme se torna magnético e surpreendentemente virtuoso. Se cinema é vida e vida é cinema, a resposta de tudo nunca irá pairar sobre qual está se projetando sobre a outra. Mas sim, como elas comunicam essa relação. Não estamos sozinhos, afinal, porque compartilhamos dessa experiência conjunta chamada arte.

I’m Thinking of Ending Things (Eu estou pensando em acabar com tudo) estréia sexta, dia 4 de setembro na Netflix Brasil.

★★★
Chances:
Filme – (Spirit Awards)
Direção – (Spirit Awards)
Roteiro Adaptado – (Oscar, WGA, BAFTA, Globo de Ouro)
Jessie Buckley (Atriz) – (Spirit Awards, Globo de Ouro)
Jesse Plemons (Ator Coadj) – (Spirit Awards, Globo de Ouro)
Fotografia – (Spirit Awards)

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