Noite de Oscar

O seu maior companheiro da temporada de premiações

Crítica – Hillbilly Elegy (Era Uma Vez Um Sonho)

Distribuído pela Netflix e dirigido por Ron Howard, o longa “Hillbilly Elegy” é baseado no livro autobiográfico de mesmo nome escrito por J.D. Vance. O filme intercala dois períodos da vida do autor para contar sua história: sua infância turbulenta ao lado de sua mãe viciada e de sua avó amorosa, e seus anos estudando na faculdade de direito de Yale.

Haley Bennett, Gabriel Basso e Amy Adams em Hillbilly Elegy (2020), cortesia da Netflix

Começo a resenha deixando claro que Ron Howard tem um objetivo com esse filme, e este objetivo não está relacionado com estudos sociais, comentários políticos ou a simples vontade de contar uma história com carinho, mas sim conquistar uma empatia por parte do público que o assiste e isso é algo que ele provavelmente conseguirá. Em um caso comum, agradar o público é inofensivo na maioria das vezes e nisso nada de errado há. O problema reside em contar uma história de uma figura real, controversa e de uma população quebrada financeiramente como entretenimento meritocrático ao invés de um estudo político-social com tais comentários interligados a sua narrativa. Em breves momentos da adaptação podemos ver o garoto assistindo e querendo acompanhar os eventos políticos dos EUA através de diversas televisões, mas o que poderia ser uma forma de demonstrar esse debate acaba sendo cortada rapidamente para uma fuga de qualquer abordagem do tema.

Owen Asztalos e Amy Adams em Hillbilly Elegy (2020), cortesia da Netflix

O arco central do filme gira em torno, não somente de uma batida história de superação, mas também da relação do garoto com sua mãe interpretada por Amy Adams. A personagem de Adams é um estereótipo ambulante – Desde os trejeitos ao sotaque e animação típica da imagem caipira que se tem dessa região dos EUA – e infelizmente Amy dificilmente consegue fugir dessa caricatura. Um dos principais empecilhos para qualquer construção de personagem reside no roteiro raso e problemático de Vanessa Taylor.

A relação mãe e filho é conturbada graças ao vício em drogas que intensifica-se após certos eventos os relacionamentos frágeis e temperamento da mãe do pequeno J.D. Entre os nuances que o filme tenta adicionar encontra-se a ligação entre Beverly e o avô de J.D., mas é algo tão mal abordado que nos faz questionar a existência desse filme mais uma vez. A abordagem ao tema do vício é tenebrosa. O que parecia estar se tornando algo levemente construído acaba sendo destruído quando Howard preocupa-se mais em passar uma moral do que contar a história de fato. O ponto de vista de Beverly é jogado fora graças a esse desinteresse do diretor em fazer algo concreto.

Em meio ao caos existe uma luz guia que atende pelo apelido carinhoso de MawMaw, a avó do jovem. Interpretada pela veterana Glenn Close, a personagem é, assim como a de Adams, um conjunto de estereótipos que é criado pelo roteiro absurdamente sem interesse, mas a atriz consegue dar dignidade ao personagem e mantém-se como uma das melhores coisas do longa. MawMaw é uma figura de presença forte, mas vulnerável e amorosa sem nunca perder a couraça que a cerca e isso deve-se ao trabalho de Glenn.

Glenn Close em Hillbilly Elegy (2020), cortesia da Netflix

Como dito no começo, o objetivo de Howard é claro e isso o levará possivelmente ao páreo na corrida do Oscar. É um filme crowdpleaser que, sem dúvidas, irá aparecer durante a temporada de premiações. Sendo um retrato raso e básico de uma família destruída que pode até fazer certo sucesso, mas que é extremamente vazio por dentro, “Era Uma Vez Um Sonho” realmente tem uma tradução certeira: ao vender ao público um filme com uma história rica e estrelada por duas grandes estrelas de Hollywood, o diretor nos prometeu algo que parecia um sonho, mas que nunca se torna realidade.

★½

Chances

Esperamos vermos esse filme na corrida no geral, mas as chances estão voltadas para Glenn Close como Atriz Coadjuvante e à trilha de Hans Zimmer.

Pedro Cardote

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo