CIFF 2020 – Semana #1

Dando continuidade a nossa cobertura do festivais anuais, temos o prazer de trazer alguns comentários a respeito dos filmes do Chicago International Film Festival 2020 (Festival Internacional de Chicago 2020) que conta com uma seleção tão interessante quanto polêmica. Nesse post, abordaremos filmes afetuosos e outros que prometem dividir o público esse ano: a alegoria de João Paulo Miranda Maria, Casa de Antiguidades; a violenta e desconjuntada produção de Michel Franco, New Order; o documentário atmosférico de Jerry Rothwell, The Reason I Jump; o coming-of-age LGBT de François Ozon, Summer of 85; Confira nossas críticas abaixo.

Casa de Antiguidades (Memory House), de João Paulo Miranda Maria

Antonio Pitanga em Casa de Antiguidades (2020)

★★

Casa de Antiguidades é, de muitas formas, o filme brasileiro do momento. Às vezes visceral, às vezes gentil, quase sempre óbvio. Acima de tudo, uma produção extremamente movida pela necessidade de catarses por intermédio do cinema – algo que involuntariamente a realidade política do país reflete para a toda cultura. O diretor, João Paulo Miranda Maria, não inventa a roda: Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, também levou os festivais europeus a altura ano passado com sua subversão pré-arquitetada e seu rebeldismo domado. No entanto, aquela onda de revolta que carregou Bacurau nos cinemas por todo o Brasil, deixa aqui o diretor paulista na mão – restando apenas a simplicidade de suas ideias.

O longa é conceituado de forma interessante: um mergulho sensorial na ancestralidade do povo brasileiro. No entanto, os problemas surgem quando o diretor sacrifica a unidade orgânica da história por uma série de choques com sombras de valência política. Antonio Pitanga defende o protagonista Cristovam com unhas e dentes, mas terminamos o filme com a sensação de que nem o diretor se importa de fato com a história do homem. No meio de truques visuais baratos, analogias risíveis e de momentos dolorosamente óbvios, é difícil não encarar o personagem como um arquétipo, um peão com seus movimentos pré-calculados. Não somente ele, mas todos os moradores do vilarejo onde o trabalhador reside. O pior é que tudo ficaria um pouco menos pior se a produção refletisse a respeito de algo simples: a contradição. Ao se apressar e recusar algo tão intrínseco ao ser como o conflito, o diretor sabota o próprio filme: como falar de ancestralidade, como falar do povo, como falar da nossa casa de antiguidades, sem falar da contradição? André Luis

The Reason I Jump, de Jerry Rothwell

The Reason I Jump (2020)

★★★½

Dirigido por Jerry Rothwell e baseado em um livro do mesmo nome, The Reason I Jump é um documentário sobre a história de pessoas autistas, suas dificuldades e superações. Não tenho familiaridade com o livro escrito por Naoki Higashida e David Mitchell, então não farei comparações. Acompanhado por uma narração que faz a imersão no longa ser ainda maior, o filme é bem educativo e sensível ao retratar o autismo, sempre deixando claro como esse transtorno de desenvolvimento funciona e como as pessoas retratadas no documentário lidam com isso. O diretor teve uma visão bem humanizada, mostrando o autismo como um mundo além do nosso e usando elementos comunicativos como música e a natureza para exemplificar o transtorno e mostrar todas as superações que as pessoas autistas lidam diariamente. The Reason I Jump é importante, educativo, sensível e muito necessário, além de contar histórias que merecem destaque, o documentário se propõe a elevar a discussão a outro nível mostrando um lado da história ainda muito negligenciado. – Stephanie Comin

New Order, de Michel Franco

Naian Gonzalez Norvind em New Order (2020)

Escrito e dirigido por Michel Franco, estrelado por Naian González Norvind e Diego Boneta, Nova Ordem parte da seguinte premissa: um casamento da alta sociedade é interrompido pela chegada de convidados indesejáveis. É um conceito interessante de primeira mão, mas tão mal conduzido que chega a ser ofensivo.

O ponto de partida do longa é genuinamente tenso, e de um ponto de vista cinematográfico, é feito de forma decente, com Franco criando uma atmosfera que vai esquentando aos poucos naquela festa e com aqueles personagens despreocupadas com o que está acontecendo fora dela. Já o resto do filme é um pornô de tortura que recorre ao shock-value e a exploração da classe trabalhadora que está sedenta por revolução, e nesse caso em específico, a população indígena mexicana. O que piora tudo ainda é como essa família de alta classe é o único lado com o qual Franco escolhe ter empatia, e a população indígena mexicana da classe trabalhadora é vista apenas como uma ameaça, e sem qualquer tipo de caracterização.

As visões políticas de Franco são tão retrógradas e confusas, sempre caindo num olhar completamente sádico para ‘’desenvolver’’ a história e seus personagens. Franco aqui não tem uma ideia interessante que quer ser passada, talvez só as de que ‘‘todos somos sujos moralmente’’ ou “vou colocar minha câmera em uma mulher sendo torturada de diversas formas sem que haja valor”. Em Nova Ordem há apenas esse exercício de estilo vazio de Franco, usado somente para deixar o espectador desconfortável, sem troco algum, durante o filme inteiro. – Daniel Borela

Été 85 (Summer of 85), de François Ozon

Philippine Velge e Félix Lefebvre em Summer of 85 (2020)

★★½

Été 85 é o novo filme do diretor francês François Ozon, que teria sua estreia em Cannes, se não fosse pela pandemia. O longa se passa num período histórico/cultural de certa forma perigoso para um romance entre dois garotos, mas que não impede a realização do mesmo. Alexis, o protagonista, é um jovem que não possui uma real motivação na vida e vê em David uma chance de real felicidade em sua constante e tediosa juventude. Leia a crítica completa de Pedro Cardote aqui.

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