Beckett – Crítica | Festival de Locarno 2021

John David Washington e Boyd Holbrook em Beckett (2021)
© Netflix

Beckett faz parte da seleção oficial do Festival de Locarno 2021. Para acompanhar nossa cobertura completa do festival, clique aqui.

Enquanto de férias na Grécia, o turista americano Beckett (John David Washington) acaba se tornando alvo de uma caçada após um acidente. Forçado a correr para salvar sua vida e desesperado para chegar até a embaixada americana, a tensão escala conforme as autoridades se aproximam, as agitações políticas no país aumentam e Beckett cai mais fundo em uma perigosa teia de conspiração.

“Beckett”, novo filme de Ferdinando Cito Filomarino, lança um desafio para si mesmo: conceber a ação como uma representação do íntimo de seu protagonista ao mesmo que é um agente de transformação externa. Utilizando como fundo as paisagens gregas e o conturbado cenário político do país, somos apresentados a um eletrizante jogo de gato e rato mesclado com a jornada de auto aceitação do seu protagonista. Por mais que essas forças frequentemente ajam na direção oposta, travando o andamento do filme, existem momentos onde elas se complementam perfeitamente. Essas sequências tornam “Beckett” cativante demais para ser ignorado.

John David Washington interpreta com maestria um protagonista completamente despreparado para ser um protagonista. O clássico cara que estava no lugar errado, na hora errada. Essa banalidade do personagem gera grande parte dos bons momentos do filme, já que eleva as incertezas na hora dos desfechos das situações angustiantes. Tudo o que sabemos de Beckett é que ele é um cara normal, com um emprego normal e com uma namorada (Alicia Vikander) tão comum quanto ele. “Como ele irá reagir a essas situações?” é com certeza uma das questões que o filme mais aproveita o seu potencial na hora de responder.

Na hora que Beckett se mete em encrenca, Ferdinando invoca sua equipe de peso para fazer a mágica acontecer. Sayombhu Mukdeeprom (“Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, “Suspiria”, “Me Chame Pelo Seu Nome”) fotografa “Beckett” de duas maneiras: primeiro de uma forma distanciada, ressaltando a enormidade do idílico cenário grego em comparação com as personagens que ali habitam; depois, quando o filme vai para um lado mais bruto e sanguinário, faz questão de ser mais inventivo e fabrica planos mais excêntricos. A trilha de Ryuichi Sakamoto (“O Regresso”, “O Ultimo Imperador”) trabalha bem com que está em tela, não interrompendo ou alterando o ritmo das sequências.

Ferdinando Cito Filomarino e John David Washington no set de Beckett (2021)
© Netflix

Como pretende trabalhar com diversas formas simultaneamente, algumas delas acabam as vezes interferindo uma nas outras fazendo com que “Beckett” passe por uns problemas estruturais ali e aqui. A câmera de Ferdinando às vezes parece controlada demais na hora de uma cena eufórica, com um ritmo quase contemplativo. Logo depois, a situação se inverte: a direção é elétrica demais numa sequência onde era importante uma pausa para meditação. Quando esse tipo de coisa não ocorre, o filme consegue trabalhar em harmonia e cada forma acrescenta uma camada diferente nas situações.

Ferdinando abertamente se inspira nas produções de Sidney Pollack, um diretor que evitou ao longo da sua carreira ser taxidermizado e colocado dentro de um gênero ou estilo específico. Por mais que “Beckett” tenha seus tropeços, existe uma força dentro do filme que busca exatamente essa mesma coisa. O fato do filme e do protagonista compartilhar o mesmo nome não é um acaso: os dois são superficialmente banais e densos em seu interior. Beckett foge de seus caçadores e fica cada vez mais perto de se encontrar. “Beckett” foge de qualquer simplificação e quer o equilíbrio entre suas questões. Os dois erram, acertam, evoluem, regridem e não possuem medo de abraçar o caos quando querem.


Beckett é criativo e bem atuado, devendo satisfazer quem busca por um thriller eletrizante e envolvente.

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