Zeros and Ones – Crítica | Festival de Locarno 2021

Zeros e Ones faz parte da seleção oficial do Festival de Locarno 2021. Para acompanhar nossa cobertura completa do festival, é só clicar aqui.

Nas horas finais de um cerco apocalíptico, ZEROS AND ONES segue o militar americano JJ (Ethan Hawke) enquanto ele navega em um mundo trancado na sombra do Vaticano. Medo, paranóia e a eventual esperança Uma guerra entre a história e o futuro se desenrola até o amanhecer.

“Deus nos perdoará por destruir sua criação?” já se perguntava o personagem de Ethan Hawke em “No Coração da Escuridão”, como se soubesse o que viria apenas quatro anos depois. “Zeros and Ones” ecoa o filme de Schrader, mas altera o foco: se um conversa sobre a autodestruição do ser humano, o outro está mais preocupado com a da sua história. E qual lugar melhor para falar de história do que Roma?

Ferrara escolhe bem o primeiro plano de seu filme: um trem chegando a estação. Cinema como registro, ou melhor, eternização. Ele segue então para a personagem de Hawke, um militar armado com uma DSLR que vaga pelas noites de um Vaticano em lockdown. Máscaras, álcool em gel e a criação de Adão. As questões são posicionadas e vamos em busca das respostas, cada vez mais difíceis de encontrar. A pandemia se mistura com a escuridão do mundo digital, uma sobreposição de apocalipses que parecem coexistir em harmonia.

Zeros and Ones
© Cortesia do Festival de Locarno

Somos apresentados ao irmão gêmeo de JJ, um “comunista-anarquista” dado como morto por forças que Ferrara não faz questão de entrar em detalhes (ou simplificar). Nada no filme é lúcido ou possui um lado moral definido. A ambiguidade é imprescindível para que o filme preserve o terror do desconhecido, de um mundo rodeado por questões que talvez nunca tenhamos a resposta. “Jesus era apenas mais um soldado. Uma baixa de guerra. Mas do lado de quem?”

Num mundo onde figuras sacras são signos do fascismo, Ferrara não oferece nada sem ser a destruição. A destruição (ou desconstrução?) do clássico pelo contemporâneo, pelo digital. Para desbravar a noite, ele liga o modo noturno de sua câmera, redimensiona, gira, aproxima. Ele parece se deliciar investigando microscopicamente a fúria que mora nesses pequenos pixels, formados de zeros e uns. Nessa nova capacidade de registro que é capaz de destruir coisas e também de se autodestruir.

Quando parece se aproximar da resposta, o dia amanhece. As pessoas já estão nas ruas, algumas brincando no parquinho, outras tomando café na esquina. O clima é de esperança, porém fica a dúvida se não estamos apenas no aguardo da próxima noite.


Zeros and Ones é uma excelente reflexão de Abel Ferrara sobre o papel das novas formas de registro num mundo rodeado por solidão e apagamento de sua história.

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