VIFF 2021 | In Front of Your Face, Segredos do Putumayo, Yuni

Continuando nossa cobertura do VIFF 2021 (Festival Internacional de Vancouver), hoje trazemos comentários sobre os filmes: In Front of Your Face, de Hong Sang-soo; Segredos do Putumayo, de Aurélio Michiles; e Yuni, de Kamila Andini;

 Não podemos ficar mais gratos ao Festival e ao apoio de vocês. Lembrando que a nossa cobertura completa pode ser conferida aqui. Fique ligado em nossas redes sociais para mais notícias!


IN FRONT OF YOUR FACE (Hong Sang-soo)

© Cortesia do VIFF

Sangok (Lee Hye-young) nunca morou em um apartamento de alto padrão e se pergunta como sua irmã (Cho Yun-hee) consegue viver nesta altura todos os dias. Alguns dias atrás, ela meio que apareceu para ficar com a irmã e agora está se acostumando com a vida na Coréia. Mesmo que guarde um grande segredo, ela vive a vida um dia de cada vez com a consciência limpa. Um certo diretor (Kwon Hae-hyo), alguns anos mais novo que ela, pediu para ela se juntar ao seu projeto e, após uma recusa educada, eles concordaram em se encontrar pela primeira vez hoje. O centro de Seoul está repleto de vielas estreitas que abrigam pequenos bares antigos, e é ali que eles se encontram. Quando eles estão ficando bêbados, há chuvas repentinas e trovões.

Acusado de fazer sempre o mesmo filme, Hong Sang-soo permanece um mistério para mim. Como alguém consegue captar tão bem pequenos gestos e emoções com planos tão abertos? Como consegue revelar tanto em situações que dentro de estruturas narrativas convencionais são taxadas de desnecessárias? De fato, seus filmes podem parecer os mesmos e com certeza não devem apelar para todos. No entanto, não seria a vida repetitiva? Uma série de momentos desordenados, sem climax, que mesmo ausente de sentido ainda sim nos revela momentos incríveis?

“In Front of Your Face” é um filme curto (só 85 minutos), porém que esconde um mundo inteiro dentro dessa duração. Assim como “Memoria”, filme de Apichatpong Weerasethakul também lançado esse ano, ele é movido pela nossa necessidade de olhar. Eles apresentam o mundo como ele é, com suas tristezas e alegrias, e assim como Sangok, nos deixamos levar por ele. Ao invés de limitar seu filme com momentos precisamente modulados, que nos dizem o que ver e sentir, Hong nos deixa livre para observar. Como o filme faz questão de afirmar, o paraíso está “na frente dos nossos olhos”.

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YUNI (Kamila Andini)

© Cortesia do VIFF

Yuni é uma adolescente indonésia que percebe que, quando seus sonhos ficam maiores, o mundo ao seu redor fica menor. Ela está prestes a terminar o ensino médio e tem grandes sonhos, ela acha que tudo é possível, mas sua cultura tem outros planos para ela.

Yuni ama a cor roxa porque ‘’representa significados de dignidade, devoção, paz, orgulho, mistério, independência e magia’’. Essas são palavras adequadas para descrever as cores que o longa da indonésia Kamila Andini tenta pintar, um longa despretensioso, dirigido com lentes criativas de certa forma convencionais, naturalista e sem distrações, objetivo e sincero.

Kamila lida com temas pesados de forma leve, ela filma a vida, no silêncio e no barulho, das pessoas desse cenário rural da Indonésia, mais precisamente de garotas adolescentes. Crescer por si só já uma tortura, num ambiente como esse o desafio é maior ainda, o modernismo e o tradicionalismo com sinceridade e brutalidade: casamento infantil e abusivo, a expressão e a violência sexual feminina, a falta de educação e educação sexual.

Como esse ambiente diz para essas mulheres (meninas) que não importam as notas na escola e seu desejo de continuar sua educação, que aos dezesseis anos você tem que escolher entre três homens para dedicar a sua vida, que o melhor caminho é estar presa no casamento e nas dinâmicas patriarcais e esse cenário deve resolver os problemas econômicos, de personalidade, de temperamento, satisfazer os desejos dos homens, mas tudo claro sem infringir essa lei religiosa e cultural. Yuni é comovente e dolorido, mas ainda dá espaço para respirar e criar esperanças.


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SEGREDOS DO PUTUMAYO (Aurélio Michiles)

© Cortesia do VIFF

Segredos de Putumayo é um documentário que narra as investigações do ativista irlandês Roger Casement, então Cônsul Britânico no Brasil, sobre a escravização e assassinato de milhares de indígenas que eram forçados a trabalhar na coleta de borracha.

“Segredos do Putumayo” mostra ao espectador a jornada de Roger Casement na Amazônia. Pelo ponto de visto do irlandês, o documentário retrata as atrocidades brutais e desumanas ocorridas na Amazônia colonial. O assunto não é novo no Brasil, mas permanece sendo negligenciado e “Segredos” tem uma abordagem nova a oferecer.

O preto-e-branco do filme realça de maneira crua quão doloroso foi aquele período para as populações nativas. A narração dá um ar de indignação e Michiles apresenta um paralelo entre as dores do passado e do presente na região em sua maioria sem nunca esquecer que esse conflito não acabou e está longe de terminar – O trauma causado nas gerações das pessoas afetadas permanece.

Entretanto, Casament era apenas um peão na construção do argumento feito pelo documentário até o final do filme, mas torna-se peça central peculiarmente em seu ato final. Não me parece ser uma escolha sábia, já que transfere a atenção dos terrores sofridos pela população indígena ao esquema de perseguição política ao explorador irlandês. De qualquer maneira, “Putumayo” é um documentário muito bom sobre uma das lutas mais antigas da América Latina.

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