VIFF 2021 | Fabian – Going to the Dogs, The Beta Test e Unclenching the Fists

O Festival Internacional de Vancouver (VIFF) celebrou sua 40ª edição com uma vibrante programação de festivais que incluem mais de 110 longas-metragens, 77 curtas e 20 eventos. Os filmes foram exibidos presencialmente nos cinemas, em conformidade com os protocolos provinciais de saúde e segurança COVID-19, com também no streaming na plataforma online do festival, VIFF Connect.

“Para nossa 40ª edição, nossos programadores fizeram a curadoria de uma seleção diversificada de cinema internacional que inclui trabalhos de dezenas de países e inúmeras comunidades aqui do Canadá”, disse Curtis Woloschuk, Diretor Associado de Programação. “É uma programação que realmente oferece uma pluralidade de perspectivas. Muitas das seleções deste ano nasceram desta era, pois compartilham histórias de re-conexões com a família e a comunidade e empregam estruturas que “dobram” o tempo. Existem narrativas poderosas de cineastas indígenas, histórias comoventes de perspectivas femininas e trabalhos ousados que confrontam questões críticas como colonialismo, racismo e a crise climática. Da mesma forma, há filmes que testemunham o poder transportador da criatividade e nos lembram que, mesmo quando está escuro, podemos sonhar. ”

O Noite de Oscar teve a chance de cobrir mais uma vez esse excelente festival e destaca abaixo os grandes títulos que passaram por essa histórica edição.


FABIAN – GOING TO THE DOGS (Dominik Graf)

Fabian © Cortesia do VIFF

Baseado no romance icônico de Erick Kästner, o escritor / diretor Dominik Graf (Irmãs Amadas) reúne as estrelas de Never Look Away Tom Schilling e Saskia Rosendahl neste emocionante drama de amadurecimento ambientado em Berlim, no tumultuado período entre a quebra do mercado de 1929 e a ascensão do Partido Nazista ao poder. Jakob Fabian (Schilling), de vinte e poucos anos, trabalha como redator publicitário para uma empresa de cigarros durante o dia e à noite, vagueia por bares de cabaré, bordéis e estúdios de arte com seu amigo Labude (Albrecht Schuch). Quando ele conhece Cornelia (Rosendahl), uma aspirante a atriz autoconfiante, ele consegue se livrar de sua atitude pessimista por um breve momento e se apaixona. Mas então, ele também perde o emprego como parte da grande onda de demissões, enquanto a carreira de Cornelia floresce graças a seu chefe e admirador, Makart (Aljoscha Stadelmann), um magnata do Babelsberg Studio.

Uma adaptação literária sempre corre o risco de ficar engessada no formato da obra original, sem muito investimento do realizador na hora da tradução. Mas o que acontece quando o esforço de romper a barreira formal entre cinema/literatura é exagerado? “Fabian” é um filme que comporta tantas estéticas, somente para tudo se anular em cena. Em um instante, uma filmagem em Super 8 parece descrever a sinfonia urbana de Berlim, em outro, a divisão do quadro em quatro partes parece ecoar o expressionismo alemão do final dos anos 20. Essas formas poderiam coexistir em harmonia? Acredito que sim, porém aqui, talvez por afobação do diretor, só sobra a tentativa/intenção imatura de querer falar sobre tudo.

Seria um filme tão bacana se focasse somente no relacionamento amoroso de Schilling e Rosendahl, um romance que logo no começo nos desperta com seu entusiasmo. Só que infelizmente não é isso que acontece. Ao misturar tantas coisas, ao desperdiçar um olhar ou toque no meio de tantos dispositivos formais, Dominik joga fora a oportunidade única de nos apaixonarmos também. A única coisa que sobra é nos impressionarmos por suas intenções que, por mais válidas que sejam, passam longe de serem tão poderosas quanto a emoção hipnotizante do cinema.


THE BETA TEST (Jim Cummings)

The Beta Test © Cortesia do VIFF

The Beta Test” é uma combinação pulsante de mistério policial, sátira de Hollywood, suspense erótico e terror psicológico febril. Ele é centrado em Jordan Hines (Jim Cummings), um predador de agência de talentos obcecado pela imagem. Na véspera de seu casamento, ele recebe um envelope roxo convidando-o para um emocionante encontro sexual “sem compromisso”. Ele é incapaz de resistir, e então começa uma série de eventos de bola de neve que catapultam Hines para o submundo tóxico de LA e para o buraco negro de sua própria existência sociopática. À medida que sua ansiedade e paranoia atingem níveis estonteantes e semi-surreais, a impressão é que Hines venderia de bom grado sua alma para descobrir quem enviou aquele envelope roxo – se ao menos ele tivesse uma alma para vender.

Uma grande surpresa, para ser bem sincero. Uma das coisas que mais me irritam nas comédias contemporâneas é aquela diversão formatada, minuciosamente planejada, que tenta se passar por orgânica. The Beta Test poderia cair facilmente nesse buraco, se Jim Cummings não fosse tão esperto – na frente e atrás das câmeras. Ao conduzir um filme que parece não se contentar com suas próprias escolhas, Cummings transforma uma história comum em algo impossível de tirar os olhos. Não porque é totalmente absurda, revolucionária, ou algo do tipo. Mas sim por que ele consegue preservar em “The Beta Test” algo raro hoje em dia: o mistério.

O formato do filme casa bem com a história narrada. A insatisfação de Jordan com sua própria mediocridade o leva a cair num buraco de minhoca infinito, levando a audiência toda junto com ele. As respostas que o filme parece oferecer são inúteis não somente para nós, mas para Jordan. É um filme bem mais inteligente do que parece ser, justamente por que evita a monotonia dos jogos de autorreflexão e das fáceis resoluções. Ele prefere nos envolver e nos tornar agentes passivos daquelas situações, junto com o próprio protagonista. Enquanto ele precisa de algo para continuar vivendo, nós precisamos de algo para continuar assistindo.


👍


UNCLENCHING THE FISTS (Kira Kovalenko)

Unclenching The Fists © Cortesia do VIFF

No alto das montanhas da Ossétia do Norte, a pequena cidade Mizur aninha-se entre penhascos íngremes. Após certos eventos , Zaur mudou seus filhos Ada, Akim e Dakko para lá. Zaur é um pai severo que valoriza a disciplina acima de tudo e não sente a diferença entre cuidado e superproteção. Seu filho mais velho, Akim, já fugiu do pai para trabalhar em Rostov, a cidade mais próxima de Mizur. Seu irmão mais novo, Dakko, ainda não decidiu o que quer da vida, e sua irmã Ada está planejando ativamente sua fuga. Ela é uma mulher adulta, mas seu pai ainda a trata como um bebê. Ada logo perceberá que será muito difícil escapar do abraço de seu pai e começar sua própria vida nova. O retorno de seu irmão mais velho, Akim, iluminará os traumas não ditos e não curados da família.

O ganhador da mostra “Um Certo Olhar” da 74º edição do Festival de Cannes é um morde e assopra difícil de engolir. É complicado falar de forma animada de um filme que rejeita qualquer emoção vinda do espectador, seja ela positiva ou negativa. Apesar do clima claustrofóbico agir de forma positiva na hora de retratar uma família que não quer se separar, ele começa ir contra o filme na hora ele tenta explorar outras facetas. A trama sobre trauma se torna unidimensional, pra não dizer derivativa (que certo olhar é esse que já vimos 500 vezes?).

Os olhos de Milana Aguzarova elevam o filme, trazendo um pouco de vida para uma produção que poderia facilmente se juntar a “Beanpole” e outros filmes da categoria exploração-da-miséria-no-oriente. Eles expressam emoções que a diretora não consegue desenvolver, trazem uma complexidade praticamente inexistente nos 97 minutos de duração. É um filme com um certo olhar cativante, de fato, mas que nunca provém de sua diretora.


A nossa cobertura completa do festival pode ser conferida aqui. Fique ligado em nossas redes sociais para mais notícias!

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