TIFF 2021 | Ahed’s Knee, France e Petite Maman

A 46º edição do Festival Internacional de Toronto 2021 (TIFF 21) começou e com ela vem aquela onda cinematográfica que o povo ama! A temporada de festivais sempre é recheada de surpresas, decepções, entre outras reações acaloradas. Pelo bem ou pelo mal, tudo o que o cinema pode oferecer. Esse ano o festival canadense selecionou vários filmes premiados de Cannes e Berlim, além de estreias internacionais que prometem brilhar nas premiações.

Vou tentar falar um pouquinho de cada filme que eu ver, mas vale ressaltar que um número considerável de títulos não ficou disponível para a imprensa internacional na plataforma do festival. Então, se vocês não verem aqui algum filme ou outro, é por que infelizmente não consegui acesso a ele. O lado bom é que mais de 90% dos títulos das mostras focadas na descoberta de novos cineastas está disponível aqui pro Brasil, então dá pra dizer que existe ainda uma magia pulsando nas veias do festival. Lembrando que você pode conferir as reações em primeira mão no nosso Twitter, @noitedeoscar.

Sem mais delongas, aqui estão alguns comentários dos três filmes que vi nesse primeiro dia do festival: “Ahed’s Knee”, de Nadav Lapid; “France”, de Bruno Dumont; “Petite Maman”, de Céline Sciamma.

AHED’S KNEE (Nadav Lapid)

TIFF - AHED'S KNEE
Ahed’s Knee © Cortesia do TIFF

Baseado na vida do diretor, o filme segue Y (Avshalom Pollak), um cineasta que visita Arraba, onde foi convidado a apresentar um de seus filmes. Lá ele conhece Yahalom (Nur Fibak), uma jovem representante do Ministério da Cultura. O encontro começa bem, mas logo se transforma numa série de desabafos a respeito de

É interessante como o Lapid constrói uma relação indissociável de amor e ódio em seus filmes. Em “Ahed’s Knee” a fúria é o que salta aos olhos por ser o elemento ligante entre uma sequência e outra, porém isso só é efetivo por que seus planos “mais calmos” estão contaminados por uma afetividade inconsciente. Um amor por aquelas paisagens que agora estão sendo destruídas não apenas fisicamente, mas também na memória do diretor.

Dá para sentir que ele quer ser muito mais frontal que “Sinônimos”, mas ainda sim ele não consegue transpassar o limite da ambivalência. A própria personagem da Yalom (Nur Feibak), representante do Ministério da Cultura, não fica presa numa bolha amoral e por isso é facilmente afeiçoável. De forma oposta, o protagonista Y (Avshalom Pollak) consegue ser tão desprezível quanto quem ele crítica. Y conta a história de uma brincadeira de mal gosto que seu pelotão realizou com seu companheiro no exército. O filme então nos convida a questionar a veracidade da história: Y era quem observou sem falar nada, o soldado que sofreu o assédio ou o militar que realizou esse terrível ato?

É um filme narrativamente bem direto, mas que vai reunindo formalmente uma energia caótica que explode lindamente numa das melhores sequências do ano. Um monólogo que é um manifesto político, um pedido de socorro, uma vingança pessoal, uma tentativa de resgate. Lapid exorciza todos os seus demônios e vai ao chão através do seu ator, que não tem outro apoio sem ser os braços da pessoa que despreza e que ironicamente é a única que está ali para entende-lo. “At the end, geography wins.”


👍


FRANCE (Bruno Dumont)

France © Cortesia do TIFF

Paris, hoje. France de Meurs (Léa Seydoux) é uma jornalista famosa divida entre a televisão, uma guerra distante e a agitação de sua vida familiar. Seu mundo frenético de alta classe vira de cabeça para baixo após um acidente de trânsito no qual ela machuca um pedestre (Jawad Zemmar). Essa inesperada irrupção da realidade coloca tudo em questão. Enquanto France tenta desacelerar e se retirar para uma vida anônima simples, sua fama continua a persegui-la até que um caso de amor mistificado parece colocar um fim em sua busca.

France não é um filme que se limita só a uma paródia do sistema midiático francês. Ele poderia facilmente se fixar no cinismo impregnado nas telas OLED atrás de Lea Sedoyx, ou nas excêntricas figuras que habitam os jantares de alta classe de Paris. No entanto, Dumont está menos preocupado em estender essa crítica óbvia do que tornar sua protagonista o motor do filme.

France de Meurs é o filme France de diversas maneiras, desde a frontalidade literal (a câmera não desgruda do rosto de Léa) até o ritmo narrativo que se caracteriza basicamente dentro do estado mental dela. Como está sempre “controlando” o próprio mundo, France acaba virando uma incógnita para quem assiste. Essa personalidade lotada de nuances é o que torna o filme hipnotizante, mesmo que as duas horas de filme soem excessivas num geral.

Léa Seydoux está maravilhosa, compartilhando da mesma energia que Isabelle Hupert em Elle (2017). Duas protagonistas que se recusam a serem reféns do drama e então, sem muito esforço, tomam o drama como refém. A França é um palco para France, assim como o mundo parece ser um palco para os jornalistas. Mas qual o papel do cinema nisso tudo? Ou melhor, qual o nosso papel como consumidores dessas imagens? Somos parceiros (de crime) de France de Meur ou também seus reféns? Está aí o grande mistério de France.

👍


PETITE MAMAN (Céline Sciamma)

Petite Maman © Cortesia do TIFF

Nelly acaba de perder sua avó e está ajudando seus pais a limpar a casa de infância de sua mãe. Ela explora a casa e o bosque ao redor. Um dia, ela conhece uma garota de sua idade construindo uma casa na árvore.

Nova longa (curto de certa forma) de Céline Sciamma, Petite Maman, lida com a pequena Nelly e como ela enfrenta o falecimento de sua avó e a “fuga” de sua mãe da casa na qual ela foi criada. O filme encontra sua magia através da imaginação infantil extraordinária de Nelly e como ela cria um mundo a parte para a criança, traduzindo toda essa nostalgia de uma infância e a melancolia da vida adulta na tela. Um aspecto que é realmente fascinante de se acompanhar.

Embora a protagonista seja a criativa Nelly, o filme é sobre sua mãe e o que ela representa na narrativa. É muito inteligente a escolha de Sciamma ao selecionar gêmeas para estrelar o filme, engrandece um dos temas principais de “Petite Maman”: a maternidade. Mãe e avó mostram como as nossas relações familiares interferem nas gerações futuras e Sciamma expõe essa ligação de maneira curiosa, mas não parece realmente ir fundo com um sentimentalismo e profundidade. Fica-se com um ar de que algumas coisas ainda precisavam ser verbalizadas ou demonstradas em tela para realizar algo completamente afetivo e carinhoso.

Deixando esses problemas de lado, “Petite” ainda tem muito a oferecer e demonstra como Céline Sciamma é uma cineasta interessante de se acompanhar atualmente.


A programação completa do festival pode ser conferida aqui. Fique ligado em nossas redes sociais para mais notícias!

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