Críticas

The Worst Person in the World – Crítica

Em 2017, os cineastas noruegueses Joachim Trier e Eskil Vogt roteirizaram o thriller/drama pouco conhecido, mas bem recebido, Thelma, com Joachim na direção. Agora isso acontece novamente no mais conhecido e mais bem recebido The Worst Person in the World (do título original Verdens verste menneske). No longa dividido em doze capítulos, com um prólogo e um epílogo, acompanhamos quatro anos da vida de Julie (Renate Reinsve), uma jovem que navega nas águas turbulentas de sua vida amorosa e se esforça para encontrar seu caminho na vida profissional, levando-a a ter um olhar realista sobre quem ela realmente é.

O prólogo nos apresenta Julie no que parece ser uma festa, fumando na sacada de algum edifício, ela é engolida pela vastidão de Oslo atrás dela, tudo ao seu alcance, mas ao mesmo tempo tão longe. Mas o longa já logo nos puxa para o começo da vida adulta de Julie, com tudo tão vomitado: a troca de cursos, os dois interesses românticos tão breves, os visuais tão distintos, o recurso da narração tão simbólico, logo eu que costumo rejeitar e achar barato. Esses momentos como fotografias de um tempo que já passou e a divisão por capítulos em seguida ressaltando ainda mais essa noção: essas almas vagantes perdidas no espaço-tempo, mas ao mesmo tempo tão definidas por ele mesmo.

Julie não para de mudar, das coisas mais simples como o seu cabelo que vai do curto ao longo, do loiro ao castanho, até as mais significativas como suas escolhas profissionais que vão de Medicina, a Psicologia da fotografia a escrita. Ela é um projeto de uma mulher, parafraseando Frances Ha (que inclusive gerou inúmeras comparações), ela ainda não é uma pessoa real (desculpa, não podia deixar essa passar). Julie não sabe em que relacionamento se segurar, Aksel (Anders Danielsen Lie) ‘’cresceu em uma época em que a cultura era transmitida por meio de objetos’’, ele está nos seus quarenta anos, tem uma carreira estável e pensa em criar uma família, isso pressiona ela? Até certo ponto. Um barista também em um relacionamento, Eivind (Herbert Nordrum), que ela encontra em uma festa e que ambos testam até onde é considerado ‘’trair’’ alguém, acende uma nova chama nela. Tudo vai moldando Julie, mas ela nunca deixa ser moldada.

Herbert Nordrum e Renate Reinsve em The Worst Person in the World (2021)
© NEON

O mundo para e congela por inteiro quando o fogo da paixão é grande, e assim, nossa protagonista em movimento deixa tudo pra trás e corre pros braços de alguém, até que ela tem que voltar para a realidade e descongelar esse mundo. Ela sente o seu corpo preso ao chão e de repente mergulhando no tapete, sente o seu corpo deformado, tocado por tantas pessoas, segurando tantos pesos, até que o efeito da droga passa. Tão idílico e palpável, tão banal e vulgar.

A vida que parecia tão revigorante e encaminhada agora parece tão entediante, a vida que foi feita de escolhas no calor do momento agora parece tão fria. Leva uma vida inteira para achar o amor da sua vida, mas leva um minuto para esse amor morrer. Aksel se eterniza na câmera de Julie, Eivind vira um momento cômico presenciado sem querer. Em um momento parece que se tem tudo que queria, mas não dá nem tempo de respirar e você já perdeu tudo. O que sobra, rir ou chorar? Acho que os dois.

Eu não sei nem se tudo isso que escrevi faz sentido. Confesso que encontrei certa dificuldade em escrever esse texto, mas espero que alcancei algum sucesso em traduzir em palavras para você leitor o que os doze capítulos de Julie causaram em mim, porque para mim, particularmente, às vezes os filmes que tenho mais apreço se tornam os mais difíceis de escrever sobre, parafraseando o próprio filme ‘’tudo que sentimos temos que colocar em palavras, às vezes eu só quero sentir as coisas’’, então eu espero que você sinta algo quando assistir The Worst Person in the World.

Renate Reinsve e Anders Danielsen Lie em The Worst Person in the World (2021)
© NEON

The Worst Person in the World é um dos melhores filmes do ano, se não o melhor. É uma lembrança de como ser fragmentado é exatamente o que nos faz inteiros. Como a vida é tragicamente cômica e como ela escapa dos nossos dedos a todo o momento. Como o escapismo do cinema é tão intrínseco a nossa realidade.

Renate e Anders dão vida aos personagens de forma que não soam como ‘’atuações’’, mas sim performances de pessoas que entendem completamente o que são esses moldes de pessoas que Julie e Aksel representam e que ao mesmo tempo os torna tão únicos, acho que esse é só um dos grandes méritos de alguém que sabe exatamente o que e quem está dirigindo. Esse é o terceiro filme da trilogia ‘’Oslo’’ de Joachim, mas esse longa se sustenta sozinho o suficiente para ser chamado de obra-prima (você não precisa assistir aos outros dois para entender esse). De todos os elogios que posso rasgar ao longa e suas tecnicalidades, ainda vem de brinde a trilha magnífica de Ola Fløttum.

Infelizmente acho muito difícil o filme ser reconhecido em outras categorias além de Melhor Filme Internacional, mas ele deve aparecer bastante no BAFTA e gerar certas (boas) incertezas da posição dele na corrida. Em um mundo justo e uma temporada menos concorrida, Renate seria um nome fortíssimo para Melhor Atriz, afinal ela tem um prêmio em Cannes na manga. Ela ainda deve estar presente em algumas apostas aí, seria uma bela surpresa o nome da atriz entre as cinco indicadas no Oscar 2022.

Julie pode ser ‘a pior pessoa do mundo’, mas o longa de Joachim Trier é um dos melhores do ano.

Por algum motivo muito estranho, The Worst Person in the World ainda não tem distribuição no Brasil.

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