Noite de Oscar

O seu maior companheiro da temporada de premiações

Glenn Close, seu legado e uma carreira atemporal

Após uma discussão com o Visconde de Valmont, a Marquesa de Merteuil se recupera do baque e em segundos coloca um sorriso no rosto, quase como uma máscara, e encontra seu amante recém conhecido. Tal cena acontece no filme “Dangerous Liaisons” e é um dos inúmeros momentos que acompanhamos a genialidade de Glenn Close em cena no longa de Stephen Frears. Em Dangerous, Glenn se eternizou na história do cinema e até hoje brilha como uma das melhores estrelas de Hollywood.

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Glenn Close em Ligações Perigosas

Começando sua carreira na Broadway, Glenn teve sua estreia no cinema com mais de 30 anos de idade no filme “The World According To Garp”. Por interpretar Jenny Fields, mãe da personagem de Robin Williams, Glenn recebeu sua primeira indicação ao Oscar. Um feito de poucas pessoas na história da premiação. A atriz perdeu para Jessica Lange em “Tootsie” e alguns defendem que Close deveria ter recebido sua primeira estatueta logo neste momento.

A década de 80 foi o ápice da carreira da atriz. Emendando trabalhos como “The Big Chill” e “The Natural”, a estrela conquistou mais duas indicações ao prêmio dourado. Foi em “Fatal Attraction” que Glenn deixou uma de suas maiores marcas: Alex Forrest, sua personagem, é tida como uma de suas melhores atuações e o AFI (American Film Institute) a considera uma das maiores vilãs do cinema.

Numa entrevista ao The Hollywood Reporter, Glenn Close afirmou ter conhecimento do receio que alguns dos produtores possuíam sobre sua escalação como Alex. “Eles estavam certos que eu era a pessoa errada para o papel, pois eles não sabiam se eu podia ser sexy”. Sua atuação prova o contrário.

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Glenn Close como Alex Forrest, “Atração Fatal”

Após sua filha, Annie Starke, nascer, Close trabalhou no longa “Dangerous Liaisons” e ali mostrou o motivo de ser considerada uma das maiores e melhores atrizes da história. A Marquesa de Glenn é interpretada com maestria. O porte charmoso e misterioso aliado a uma atuação deliciosamente dissimulada é um dos pontos principais notados da personagem. O jogo de poder entre o Visconde e a Marquesa torna-se incomparável com a presença da dupla Close e Malkovich. Algo que provavelmente jamais será superado.

Indicada pela quinta vez ao Oscar, a atriz perdeu novamente. Numa das derrotas mais injustas desde o começo da premiação. A estrela não parou, mas sumiu por um longo tempo das indicações à estatueta. Com performances em filmes como “Reversal of Fortune”, “Hamlet” e “The Paper”, o público continuou a acompanhar uma carreira aclamada.

Foi em 1996 quando o mundo conheceu a versão de Glenn Close da vilã Cruella De Vil na adaptação live-action da animação da Disney de “101 Dalmatians”. Carismática e camp são alguns dos adjetivos que aparecem na cabeça após assistir Glenn se divertindo enquanto encarna a figura vilanesca. Sua performance foi tão aclamada que ela voltaria a interpretar a personagem numa sequência do longa e marcaria gerações para sempre.

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Glenn Close como Cruella De Vil, “101 Dálmatas”

Todos sabemos quão cruel a indústria é com mulheres conforme envelhecem. Isso nota-se na maneira que a carreira de Glenn no cinema foi ficando em menor evidência no começo do novo século. Entretanto Close voltou-se ao palco da Broadway e nele recebeu elogios por sua performance de uma das figuras mais emblemáticas da sétima arte: Norma Desmond.

A Norma de Gloria Swanson é figurada entre as maiores do cinema. Quando “Sunset Boulevard” foi adaptado em forma de musical e após algumas turbulências na transição para a Broadway, Glenn assumiu a responsabilidade de interpretar a personagem. O resultado da sua interpretação foi uma vitória ao Tony, famoso prêmio de teatro estadunidense, e um público enorme pedindo uma adaptação do musical para o cinema para ter-se a oportunidade de ver Glenn Close retornando para o papel nas telonas. Recentemente houve uma confirmação parcial da adaptação e Glenn afirmou que o roteiro está pronto e ela produzirá o longa, mas os envolvidos estão esperando o aval completo para iniciar as filmagens.

Mesmo com o passar do tempo, Glenn não se abateu continuou se reinventado. Ao estrelar a série “Damages”, a atriz nos presenteou com a personagem Patty Hewes, uma advogada inteligente, moralmente duvidosa e muito ambiciosa. Um papel que revolucionou as personagens femininas na TV e gerou mais um grande feito na carreira de Close. No cinema, ela voltaria aos holofotes dos prêmios com a adaptação de “Albert Nobbs”.

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Glenn Close como Albert Nobbs

Quase como uma fênix, Glenn surgiu com o longa “The Wife” em 2018 e recebeu os elogios de sua carreira por sua entrega como Joan Castleman. Aclamada pelo público e pela crítica, sua narrativa era certeira e seu caminho para a vitória no Oscar era certo. Num choque para todos, nós vimos a atriz perder para Olivia Colman numa das maiores surpresas nas cerimônias recentes. Mesmo com a derrota, a atriz teve seu nome brilhando novamente e vivo no imaginário do público.

Ano passado ela estrelou ao lado de Amy Adams a mais recente obra de Ron Howard, “Hillbilly Elegy“. O longa foi massacrado pela crítica, mas a MaMaw de Close foi aplaudida por todos. O que antes parecia ser uma esperança de vitória na corrida à estatueta dourada, agora tenta a sorte em somente conseguir uma oitava indicação para a atriz.

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Glenn Close em “Era Uma Vez Um Sonho”

A Netflix aparenta ter ignorado o filme em suas campanhas e tem focado em Amanda Seyfried por “Mank” e Ellen Burstyn por “Pieces of a Woman” na corrida de atriz coadjuvante, mas o histórico de Glenn e sua narrativa ainda pode impulsiona-la para uma oitava possível indicação. Caso consiga, Glenn Close se tornará a atriz viva com maior número de indicações sem vitória.

O caminho ao Oscar para Glenn Close parece incerto. Ao mesmo tempo em que o massacre por parte dos críticos seja um grande obstáculo, a narrativa e o fator do filme ser bem crowdpleaser pode ajudá-la durante o período das premiações televisionadas. Infelizmente é quase impossível prever como os votantes irão receber o filme. Algo que somente as premiações irão dizer conforme seus respectivos anúncios.

Em seus anos como atriz, Glenn ainda mostrou-se uma excelente ativista. Após conversas e desabafos com sua irmã, bipolar, e o diagnóstico de seu sobrinho de transtorno esquizoafetivo, Close iniciou uma fundação, Bring Change To Mind, que procura quebrar os estigmas envolvendo problemas mentais.

Aos 73 anos, Glenn Close permanece sendo uma força em Hollywood. Tendo se reinventado e evoluído durante seus anos na profissão e isso é algo a ser admirado. Existe uma concepção de que um Oscar é o ponto máximo da carreira de algum ator, quase como um comprovante do talento da pessoa que o adquire, mas será que este mito prova-se real? Uma atriz do porte de Glenn merecia ter pelo menos um Oscar para condecora-la, mas com tantas preciosidades colecionadas ao longo do tempo esse prêmio seria apenas mais uma adição num legado riquíssimo e numa vida brilhante e a reposta para a pergunta feita anteriormente torna-se óbvia.

Pedro Cardote

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