Crítica – Pieces of a Woman

Pieces of a Woman teve sua estreia no festival de Veneza no final do ano passado, foi bem recebido e por consequência premiou o Volpi Cup para Kirby, colocando a mesma como uma candidata forte para o Oscar de Melhor Atriz, se a tradição prosseguir. Dirigido por Kornél Mundruczó e escrito por Kata Wéber, o longa tem produção executiva de Martin Scorsese e Sam Levinson. Na narrativa do longa, Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf) são um casal de Boston à beira da paternidade cujas vidas mudam drasticamente quando um parto em casa termina em tragédia. A partir daí passamos a acompanhar os meses seguintes desses personagens, com o foco em Martha, enquanto ela lida com sua dor e com os relacionamentos turbulentos de sua vida: seu marido, sua mãe (Ellen Burstyn) e a luta no tribunal com a parteira vilanizada publicamente (Molly Parker).

Vanessa Kirby e Shia LaBeouf em Pieces of a Woman (2020), cortesia da Netflix

O filme engata com uma sequência de aproximadamente meia hora completamente hipnotizante, angustiante e devastadora de Martha dando à luz e, após esse evento, o ritmo do filme muda repentinamente, assim como a vida desses personagens. Ainda que não tenha o mesmo impacto emocional que a primeira meia hora e talvez não prenda tanto os espectadores por consequência, os sentimentos permeiam: a atmosfera que Mundruczó almeja a partir desse momento pode ser diferente, mas a lente sincera e naturalista continua.

Algo incômodo existente na narrativa pode ser de como ela é previsível, à medida que ela se desenrola não há tanto impacto quanto você espera e alguns comportamentos dos personagens soam até clichês. Mas esse fato não deve necessariamente estragar o produto final, ainda mais contando com o feitiço que essa primeira meia hora conjurou, só deixa com uma sede de algo maior, sem dúvidas. A maneira como o longa é conduzido e atuado é o suficiente para te deixar preso naquela atmosfera, emocionar e satisfazer com o desfecho dos personagens.

Ellen Burstyn, Kornél Mundruczó e Vanessa Kirby no set de Pieces of a Woman (2020), cortesia da Netflix

Mundruczó utiliza de sequências mais estendidas e lentas, juntamente das lindas imagens filmadas pelo diretor de fotografia Benjamin Loeb, nos imergindo nessa inquietação emocional dos personagens. Ele trabalha na sutileza, criando uma atmosfera única, com a sensação de ser uma mosca na vida daqueles personagens e busca evocar sentimentos dos momentos mais pacatos e ordinários da vida de Martha: quando ela sai para uma caminhada, fuma na janela, cozinha, vai à uma festa, toma um banho, vai à livraria, come uma maçã.

A direção entra em harmonia com a escrita quase pessoal de Wéber, como dito pelo seu parceiro (Mundruczó), que colaboram juntos nesse longa e ‘’tiveram uma perda, que não foi tão trágica quanto a do filme, mas tiveram de enfrentar’’, que vem com completa sinceridade: uma mulher sendo despedaçada, pegando esses pedaços quebrados e se reconstruindo. Mas Wéber também trabalha com simbolismos de certa forma baratos e notados facilmente: a obsessão de Martha por maçãs, como o longa abre com Sean e uma equipe trabalhando na construção de uma ponte e termina com aquela ponte nova de pé após todos esses meses de trabalho.

Vanessa Kirby em Pieces of a Woman (2020), cortesia da Netflix

O elenco todo é muito bem dirigido e entrega grandes trabalhos, não deixando nenhum momento artificial e muito menos perdendo a mão nos momentos mais altos e de turbulências emocionais na narrativa e nos personagens, mas é claro que o destaque aqui é totalmente de Kirby. Disparar elogios a atriz a esse ponto soa redundante, com certeza é seu melhor e maior trabalho e seria de grande desapontamento não a ver recompensada devidamente por ele.

Não podendo deixar de lado a trilha sonora de Howard Shore: sútil, porém muito presente nesses momentos ordinários, que sem dúvida tem um grande impacto nesse retrato delicado e naturalista da vida desses personagens. Liderado por uma atuação magistral de Vanessa Kirby, Pieces of a Woman desenvolve de forma íntima e sincera a tragédia de perder um filho e as consequências disso numa família, sobretudo na mulher.

★★★★

Chances

Apesar de Kirby e Burstyn não estarem aparecendo nos prêmios da crítica, a campanha que as duas vem fazendo com a Netflix está forte, as chances eram maiores nos meses anteriores, mas elas continuam de pé como fortes contenders em Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. O filme em si já não tem muita força e o escândalo com LaBeouf pode ser mais um empecilho para ele na temporada.
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